Crítica: Aura

O Terreiro do Paço tornou-se, nos últimos anos, um espaço gastronómico por excelência, onde vários restaurantes lutam pela atenção dos nossos palatos. O Aura é um deles.

Assim que viramos a esquina, vindos da Rua do Arsenal (pode por o automóvel no parque da Praça do Município), damos com um dos restaurantes mais cosmopolitas daquela que é considerada como a maior praça da Europa. O Aura divide-se em duas salas, uma mais indicada para refeições rápidas, com um estilo lounge, e outra onde a verdadeira… aura do espaço se mostra em pleno.

A cozinha, que se assume como portuguesa contemporânea, tem dois mentores: a carta é da responsabilidade do chef Duarte Mathias e a produção gastronómica fica a cargo de Fabrice Marescaux. No menu encontramos ingredientes tipicamente portugueses que inspiram pratos despretensiosos, com aquele toque de tradição que muitas vezes se parece perder nos conceitos da moda.

A sala principal do Aura é, no mínimo, inspiradora: a decoração mistura elementos clássicos (os vasos romanos, as cadeiras sec. XVIII) com apontamentos mais contemporâneos (as louças, os candeeiros). Ao fundo da sala, imponente, uma reprodução da Venus de Milo, a insígnia deste restaurante.

O restaurante oferece dois menus principais: o Momentos (com os pratos) e o Intensidades (com os vinhos). Para quem quiser ir com vários amigos ou festejar uma data especial rodeado de pessoas especiais, a opção indicada é pedir um dos menus de grupos.

A recomendação do chef, para termos uma verdadeira experiência de menu começou com um típico queijinho artesanal de Azeitão, um daqueles pecados calóricos que todos devíamos cometer uma vez por semana ao almoço. Lembre-se de que a beira rio está sempre à sua espera para uma corridinha de fim de dia, por isso não se acanhe nos couverts.

Nas entradas, a escolha foi mais complicada: o Aura não facilita e mostra-nos oito propostas de por as papilas gustativas em festa. Há carpaccios de polvo e novilho, sopas de tomate (com ovo escalfado e manjericão) e de peixe; mas típico, típico, são as amêijoas à Bulhão Pato e a Alheira Auriana com Ovo Estrelado e Grelos.

E foi mesmo com esta última proposta que arrancámos para a degustação mais a sério dos sabores ao Aura. Este enchido é, provavelmente, um dos mais reconhecidos da gastronomia nacional, a par da farinheira e do chouriço de sangue. O Aura consegue aqui recuperar o sabor tradicional, num conjunto que agrada tanto ao olho como ao palato.

Impecavelmente frita (óleo a mais nem vê-lo), a cama de grelos aparece bem condicionada e o ovo estrelado dá aquele toque final português de que estamos à espera. É bom ver estes ingredientes simples na carta de um restaurante de luxo e num prato que se assume como uma bela entrada para os restantes sabores do Aura.

Alheira

Oito parece ser o número mágico deste restaurante lisboeta: as opções de peixe e carne apresentam-se sob aquele que é considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. Terá sido propositado?

A nossa escolha recaiu sobre um prato de carne, aquele que será o mais emblemático do Aura, depois de uma sugestão dos responsáveis: Tornedó de Novilho com Queijo da Serra Fundido, Batatas Chips e Esparregado. Aqui, um reparo a fazer – um prato de 21 euros nunca, mas NUNCA, pode trazer batatas fritas que parecem ser de pacote.

Aliás, esta moda de usar chips em restaurantes devia ser completamente banida, pois na minha opinião é um completo desrespeito pelo cliente. O sinal que passa é o de que na cozinha não se esteve para perder tempo a cortar duas ou três batatas para fritar, ou assar, uns palitos generosos.

Tornedó

Este é daqueles pormenores que pode estragar um prato, embora o tornedó estivesse suculento e no ponto, com o queijo a servir de complemento perfeito. Uma situação a rever rapidamente: numa cozinha que tem um chef e um consultor gastronómico isto nunca deveria acontecer.

Para piscar um pouco o olho aos gostos mais “italianos” de alguns turistas, o Aura tem ainda um curto menu com três risottos (camarão, tomate e espinafres; vieiras com presunto transmontano; e cogumelos porcini) e um prato de massa, com amêijoas e coentros frescos.

A carta de sobremesas é daquelas que só de ler os nomes corremos logo o risco de ficar com colesterol (e açúcar) a mais no sangue. Se não, veja-se: Trilogia de mousse (negro, caramelo e laranja), Sinfonia de creme brulé ou Pêra recheada e coberta com mel, nozes, creme de baunilha e redução de vinho do Porto.

Pera Folhada

Foi exactamente por esta última que optámos, e aqui regressámos às notas positivas sobre o restaurante: os sabores estavam bem equilibrados, com a redução de Porto a fazer maravilhas pela sobremesa.

Falta falar no vinho: um tinto Quinta do Gradil é sempre uma opção segura para acompanhar uma refeição intensa, cheia de sabores e que não merecia mesmo as chips como ponto negativo.

Ricardo Durand
Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].