Restaurante Novo Mundo transforma-se em galeria de arte: neste jantar, pintamos e comemos com Andy Warhol, Picasso e Van Gogh

O menu foi criado pelo chef Nuno Pizarro: o chef descreve o 7 Paintings como uma «experiência dinâmica», onde os pratos têm produtos de várias bancadas do «Mercado da Ribeira».

©TRENDY Report | 7 Paintings
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No Duo Hotel Lisbon, o 7 Paintings mistura videomapping, gastronomia e história da arte numa experiência imersiva que transforma a mesa (e os pratos) numa tela interactiva.

Depois do Le Petit Chef, Lisboa volta a receber um conceito com base em projecções, storytelling e gastronomia, mas desta vez com ambições mais… artísticas. O 7 Paintings está, sem data para terminar, no restaurante Novo Mundo, do Duo Hotel Lisbon, Curio Collection by Hilton (entre Santos e o Cais do Sodré), através de uma produção da empresa alemã Dinner Tales.

Ao longo de cerca de duas horas e meia, a ideia é percorrer sete momentos inspirados em artistas como Miguel Ângelo, Pablo Picasso, Jackson Pollock, Andy Warhol, Salvador Dalí ou Vincent van Gogh, num jantar que tenta transformar cada prato numa espécie de extensão visual e interactiva da obra escolhida.

Este jantar acontece numa sala dedicada do Novo Mundo, com cinco mesas e capacidade para vinte pessoas por sessão. As projecções, como acontece neste tipo de experiência, são feitas directamente sobre a mesa, com um videomapping que nos parece bastante mais elaborado e imersivo que o Le Petit Chef.

©TRENDY Report | 7 Paintings
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A música e os efeitos visuais são uma constante do 7 Paintings, por isso não espere momentos tranquilos e silenciosos para conversar com os amigos. Aliás, uma das críticas a fazer é o facto de a música estar sempre num volume demasiado alto, o que acaba por ser desconfortável quando estamos a tentar puxar pelos outros sentidos para degustar os pratos.

O menu foi criado pelo chef Nuno Pizarro, embora tendo em conta algumas regras da Dinner Tales; o chef descreve o 7 Paintings como uma «experiência dinâmica», onde os pratos têm produtos de várias bancadas do «Mercado da Ribeira». ‘Dinâmica’ é a palavra certa, mas gostávamos de a ver associada a ‘consistência’, uma vez que há alguns momentos em que nem tudo corre bem; mas, no geral, este jantar interactivo do Novo Mundo tem nota positiva.

Isto acontece porque, sem dúvida, há momentos em que o conceito resulta de forma particularmente eficaz. Por exemplo, o momento dedicado a Andy Warhol (foto em baixo) e à arte pop é um dos pontos altos da noite: uma redução de vinho do Porto servida numa clássica garrafa de Coca-Cola acompanha um lombo de vitela escondido dentro de uma lata Campbell’s de sopa de tomate, numa referência directa à obra do artista norte-americano.

©TRENDY Report | 7 Paintings
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Outro momento ‘wow’ é a sobremesa inspirada em ‘Starry Night’ (foto de detaque), de Van Gogh, onde um bolo semelhante a um pan d’épices surge com uma pequena tela comestível da obra parcialmente em branco; depois, com pincéis reais, temos de a pintar com ganache de chocolate, creme de pasteleiro e creme de limão.

Menos bem conseguido é o quarto momento, inspirado em Pollock (foto em baixo), que transforma a mesa numa espécie de tela: é-nos colocada uma base de silicone que temos de “pintar” com puré de abóbora, espinafre, beterraba e vinagrete, com recurso a pincéis de silicone. A ideia é replicar os splats caóticos do pintor, mas o resultado aproxima-se mais de uma brincadeira do que de um prato, propriamente dito. Aqui, é evidente que o impacto cénico foi privilegiado em detrimento da componente gastronómica.

O mesmo acontece com o primeiro prato, inspirado em Miguel Ângelo e na Capela Sistina, mas em que a verdadeira inspiração é ‘O Código Da Vinci‘: os convidados recebem uma lanterna de luz negra (tal como acontece na história de Dan Brown, logo numa das primeiras cenas) para descobrir um código escondido na mesa. Este serve para abrir um pequeno cofre onde se encontra a entrada, também sem grande expressão gastronómica: uma mini-brunoise de tomate ao estilo algarvio, servida numa tartelete muito dura.

©TRENDY Report | 7 Paintings
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Este é ainda um exemplo de que há uma falha de comunicação ao explicar como é que alguns pratos funcionam em termos de interacção: aqui, não podemos mexer no cofre, uma vez que isso pode fazer com que a entrada se espalhe pelo seu interior. Contudo, como nunca nos avisaram desse detalhe, pegámos no cofre para conseguirmos abrir e ver melhor o cadeado.

Isto acabou ainda por acontecer no prato inspirado em Picasso (foto em baixo), em que era preciso adicionar uma redução de vinho tinto a um filete de salmonete. Contudo, isto tinha de ser feito por cima da tela comestível que vinha no topo, de modo a criar um molho colorido, algo que não fizemos. Ou seja, há alguns pratos que exigem procedimentos específicos para “funcionarem” correctamente: ao faltarem instruções mais claras por parte da equipa de sala, faz com que certos momentos percam impacto.

Ainda assim, o equilíbrio entre espectáculo, narrativa e cozinha acaba por funcionar muito bem, num conceito tão dependente da componente visual. Na maioria dos pratos criados por Nuno Pizarro existe competência técnica na cozinha e percebemos que houve uma preocupação real na criação de cada momento, até porque houve um trabalho de adaptação a ingredientes clássicos da cozinha nacional.

©TRENDY Report | 7 Paintings
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O 7 Paintings é para pessoas que querem jantar, divertir-se, fotografar e sentir que participaram em algo diferente da habitual experiência gastronómica mais minimalista (por serem sete pratos, as doses nunca são em demasia, excepto o bolo de Van Gogh, com uma fatia algo exagerada). Há alguns excessos, algumas ideias ficam mais interessantes no papel que no prato, mas também uma sensação de “missão cumprida” na transformação de um jantar num verdadeiro espectáculo interactivo.

Resta dizer que as sessões realizam-se todas as Sextas-feiras e Sábados, a partir das 19:30; o menu custa 135 euros por pessoa e inclui, como já referimos, sete momentos — uma entrada, quatro pratos principais e duas sobremesas. O pairing vínico é opcional, com três fórmulas distintas: Almada Negreiros (45 euros), com cinco vinhos, um cocktail e uma ginjinha; Grão Vasco (21 euros), com dois vinhos Casa Velha; e Columbano (25 euros), sem álcool, com três cocktails. A água está incluída. As reservas podem ser feitas no site oficial do evento.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].