India Gate chega ao fim na Baixa: os pratos de «alma antiga» deste restaurante vão passar a ser um exclusivo de Santos

A cozinha continua muito centrada nos pratos tandoori (há um forno clássico tandoor na cozinha) e nos grandes clássicos indo-mughlai, mas há detalhes interessantes para descobrir.

©TRENDY Report | India Gate
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No India Gate de Santos, jantámos num espaço mais contemporâneo, provámos pratos de conforto e sentimos a ambição de reforçar o peso histórico da família Devani na cozinha indiana de Lisboa.

O India Gate está a celebrar duas décadas em Lisboa em 2026, mas, ao contrário do que costuma acontecer com vários restaurantes, a festa não vai ser feita com uma nova carta ou com a abertura de mais um espaço.

Hemant Devani, que está à frente do India Gate há vinte anos, fala numa nova fase: «Vamos ficar apenas com este restaurante: tem mais espaço, é mais moderno, podemos receber grupos de cem pessoas. O contrato do outro espaço vai acabar e nós decidimos focar as nossas energias em Santos». Ainda antes do Verão, deve ainda abrir uma esplanada com vinte lugares, na retaguarda.

A mudança não será apenas «geográfica». Há uma tentativa clara de reposicionar o India Gate «acima do típico restaurante indiano turístico» que domina parte da oferta lisboeta, ao mesmo tempo que é reforçada a dimensão familiar e quase pioneira da história da família Devani na cidade.

©TRENDY Report | India Gate
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Na realidade, estamos a falar de uma ligação que começou nos anos oitenta, muito antes do India Gate, com Kishor Nemchand, pai de Anita Devani, mulher de Hemant. Chegou de Moçambique e abriu o histórico Caxemira, na Praça da Figueira, um dos nomes mais antigos da cozinha indiana na capital (hoje, está no Parque das Nações).

Quando o India Gate abriu, em 2005, a gastronomia indiana estava longe da popularidade actual e a cidade tinha ainda poucas referências. O novo espaço em Santos surge, assim, como uma evolução natural desse percurso, onde encontramos um ambiente mais contemporâneo e sofisticado.

Mas o que não muda é a matriz clássica da cozinha do norte da Índia que acabou por pautar sempre a reputação deste restaurante. A cozinha continua muito centrada nos pratos tandoori (há um forno clássico tandoor na cozinha) e nos grandes clássicos indo-mughlai, mas há detalhes que mostram alguma preocupação com a matéria-prima e com a consistência.

Um exemplo disso é o uso de frango nacional no Butter Chicken, «um dos best sellers da casa juntamente com o Chicken Korma», conta Hemant Devani, que conversou com o TRENDY Report, depois de termos jantado a convite do restaurante.

©TRENDY Report | India Gate
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À mesa, a refeição começou com dois clássicos: chamuças de frango (Chicken Samosa) e Onion Bhaji. As primeiras surgiram com massa fina e recheio equilibrado, embora as tenhamos achado algo pequenas para o que estamos acostumados neste tipo de restaurante (somos também clientes do Caxemira e do Hawelli, ambos com raízes nesta família).

Já os bolinhos fritos de cebola não desiludiram: chegam à mesa numa boa dose com dez unidades, secos como se querem (ou seja, sem óleo), com a habitual textura irregular, sabor suave a especiarias e uma boa crocância. São os snacks ideais para fazer dip no óptimo Achar de Manga e no Molho de Iogurte com Menta que são servidos como couvert.

Outro arranque interessante foi com o Aloo Crispy, uma entrada sugerida por Hemant: batatas fritas às rodelas envolvidas em farinha de milho, que reforça a textura estaladiça. É quase um snack de partilha informal, que nos víamos a comer com uma ou duas Cobra geladas.

Nos pratos principais, o Chicken Madras destacou-se como uma das escolhas mais interessantes da secção da carta com as «Recomendações do Chef». O molho de tomate e especiarias chegou bem vivo, mas não nos picou a boca como esperávamos, o que nos fez pedir o picante da casa para ficarmos a deitar algumas labaredas pela boca.

©TRENDY Report | India Gate
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Já o Kadai Gosh (foto em cima) trouxe um perfil mais robusto e adocicado: o caril de borrego com tomate, cebola, pimentos e malagueta veio acompanhado de um molho espesso, bem temperado e equilibrado. Notámos que o India Gate mete nos pratos o que Hemant Devani nos contou: é preciso adaptar alguns pratos ao gosto português, até porque o cliente nacional continua a ser o que mais vai ao India Gate.

Aqui, a filosofia do restaurante não pode ser beliscada: sabores intensos, mas adaptados a um público amplo. A acompanhar tudo, não podíamos deixar passar o Pulau Rice, com cajus e sultanas. Muito aromático e ligeiramente adocicado, funcionou bem com estes dois pratos de perfil mais condimentado. Convocado foi também o Cheese Nan, que já nos habituámos a usar para rapar o molho de qualquer prato indiano — aqui não foi diferente.

Para terminar, era um crime não experimentarmos a obra-prima doce da cozinha indiana: a Bebinka, que no India Gate é particularmente leve e equilibrada, sem ser uma explosão de doce. Esta sobremesa tradicional indo-portuguesa, associada a Goa, surgiu, assim, menos pesada do que em muitas versões de outros restaurantes.

Percebemos o esforço para elevar o projecto acima do registo puramente turístico, mas a carta continua com uma escolha de pratos algo extensa, tal como acontece noutros restaurantes do género. Talvez agora, que o India Gate passa a estar apenas em Santos, seja uma boa oportunidade para olhar para este menu e perceber que opções podem sair.

©TRENDY Report | India Gate
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Achamos sempre que uma carta bem curada, com pratos certeiros e escolhas simples, é um dos bons caminhos para um restaurante de sucesso. A cozinha indiana é quase uma biblioteca infinita de receitas, até porque cada região tem o seu ADN — é difícil escolher, mas percebemos que o India Gate também tem as pessoas certas para criar aqui uma versão 2.0 que seria muito bem-vinda ao panorama gastronómico asiático de Lisboa.

Este novo espaço, a herança familiar e a tentativa de preservar uma cozinha de perfil tradicional são outros dos trunfos que podem ajudar o India Gate a manter um lugar relevante numa cidade onde a oferta indiana cresceu muito nos últimos anos.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].