O novo Upon nasceu numa das mais importantes fábricas da história industrial portuguesa. Hoje, o edifício recebe hóspedes, mas continua a contar as histórias de quem ali trabalhou durante décadas.
Há hotéis sem grande identidade que podiam existir em qualquer cidade do mundo. E, depois, há aqueles que só fazem sentido naquele lugar específico: o Upon Harbor, no Seixal, onde estivemos a convite da marca para experimentar o conceito, pertence a este “clube”.
À primeira vista, é mais um hotel com vista para o mar (neste caso, o mais certo é dizer ‘rio’), mas ao atravessar as portas do lobby percebe-se que há aqui uma grande marca histórica e emocional. As paredes envidraçadas deixam entrar a luz da baía do Seixal, uma espécie de holofotes naturais que dão palco a fotografias antigas, peças industriais e objectos recuperados do espólio da Mundet.

O Upon Harbor é um hotel que, antes de receber turistas, também nos lembra de que está num edifício que era a casa de uma das mais importantes fábricas de cortiça do País. É precisamente esse equilíbrio entre passado e presente que define o sexto projecto do StayUpon Hospitality Group, uma década depois da abertura das Casas da Baixa, em Lisboa. Depois da aposta na frente ribeirinha de Alcochete com o Praia do Sal Resort, o grupo volta a olhar para a Margem Sul para transformar um património industrial num destino turístico.
«A ideia nunca foi criar hotéis que fossem todos iguais», explica Raquel Gomes, COO do grupo StayUpon. A responsável sublinha que o grupo quer sempre «adaptar cada unidade ao contexto local», uma filosofia que é particularmente evidente neste projecto, ainda mais do que no Praia do Sal.
O projecto ocupa, assim, parte das antigas instalações da Mundet, fundada em 1905 e encerrada em 1988, com restaurante, ginásio, cerca de cem apartamentos nos espaços que antes recebiam os trabalhadores, máquinas e toneladas de cortiça. A transformação demorou cerca de «cinco anos» a concretizar-se e, embora o hotel estivesse inicialmente previsto para abrir ainda em 2025, só tenha entrado em soft opening em Fevereiro deste ano.

O resultado é um aparthotel de quatro estrelas assinado pelo arquitecto Tiago Palmela, com interiores concebidos pelo Atelier Catarina: tem 102 apartamentos, entre tipologias T0 e T3, pensados tanto para estadias de curta duração como para permanências mais longas. Há também uma componente residencial, com apartamentos para venda: os preços começam em cerca de trezentos mil euros para um T1 e podem ultrapassar os setecentos mil euros nas tipologias T3.
Nos alojamentos, a aposta passa pela funcionalidade. As cozinhas estão equipadas com frigorífico, máquina de lavar roupa, talheres, pratos e chaleira eléctrica. Há, ainda, máquinas de café Delta Q nos quartos e varandas suficientemente amplas para trabalhar ao computador, ler um livro ou simplesmente tomar o pequeno-almoço com vista para a baía do Seixal.
Mas, como já tínhamos experimentado no Praia do Sal, a experiência prolonga-se além das portas dos apartamentos. Temos um ginásio no piso térreo — embora o espaço pudesse beneficiar de uma utilização mais ambiciosa do que as quatro máquinas actualmente disponíveis — e uma espécie de cereja no topo do bolo. No rooftop fica uma dupla piscina (uma delas mais protegida, que se torna interior no Inverno), um fire pit e um bar, mesmo a pensar no pôr-do-Sol.

Cá em baixo, há um restaurante que assume um papel central na identidade do projecto, o Ebulição (foto em baixo). Aqui, o nome não foi escolhido ao acaso. «É uma referência directa ao processo de fervura das rolhas de cortiça, uma etapa fundamental para tornar o material mais flexível e maleável», lembra Mónica Pereira, directora-geral do Upon Harbor.
A carta, criada por Diogo Seixas, chef do Omaggio, no Praia do Sal, inspira-se na gastronomia portuguesa e recupera expressões populares para baptizar alguns pratos: temos, por exemplo, o Zé Polvinho ou Quem Não Arrisca, Não Petisca. Em breve, vamos dedicar uma reportagem a este restaurante.
Fora de portas, também há motivos de interesse. Para Mónica Pereira, a «ligação ao território» é um dos pilares da nova unidade, algo que até se pode perceber dos quartos voltados para o lado oposto à vista de rio. Nas traseiras do hotel fica o Parque Urbano do Seixal e o Ecomuseu Municipal, instalado precisamente noutras áreas da antiga Mundet. Aqui, podemos conhecer melhor a história da fábrica através de exposições permanentes e maquinaria original preservada.

Mas o objectivo do StayUpon passa também por explorar a relação da unidade com o rio. Já é possível chegar ao hotel através de uma ligação da Seaview, que parte da Doca de Santo Amaro e termina junto ao cais do Seixal (foi o que experimentámos para chegar ao Harbor).
Estão ainda em desenvolvimento novas actividades para hóspedes, incluindo «canoagem, stand-up paddle e outras experiências ligadas à baía», garante Raquel Gomes. «Temos uma ligação muito forte às frentes ribeirinhas e o Seixal tem muito para dar ao turismo. Já trazemos a experiência adquirida em Alcochete e queremos fazer aqui algo semelhante», remata a COO.
E, talvez, seja mesmo esta a melhor forma de resumir o Upon Harbor. Mais do que um hotel, é uma nova vida para um lugar que durante décadas definiu a identidade do Seixal. Onde antes se fervia cortiça, dorme-se, trabalha-se numa varanda virada para a baía e mergulha-se numa piscina infinita. Mas, pelo caminho, a Mundet continua presente, não apenas como uma memória distante: é uma parte fulcral desta experiência.


















