Malice: o italiano que é uma homenagem a duas avós deixou de ser apenas uma pizzaria e entrou em ‘modo osteria’

Mesmo assim, a pizza continua longe de desaparecer. A nova carta mantém uma base italiana assente em massa sourdough (fermentação lenta), mas com uma aparente vontade de ter ingredientes e combinações mais sofisticadas.

©TRENDY Report | Malice
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Este restaurante do Príncipe Real parece mostrar uma carta mais ambiciosa, onde as pizzas dividem a atenção com pastas, carnes e pratos de inspiração italiana contemporânea.

Logo no início da Rua do Século, de quem se aventura a descer pelo Príncipe Real, o Malice está a entrar numa nova fase. O espaço, que até agora era conhecido, sobretudo, pelas pizzas de longa fermentação, assumiu-se há dois meses como ‘osteria’.

O nome do restaurante, criado por Jorge Marques (também dono do histórico Faz Frio, ali mesmo ao lado), é uma homenagem às suas duas avós: Maria e Alice, que o desafiavam a ir ao mercado e a comprar ingredientes para fazer pratos italianos para os avôs. Ma(ria) e Alice são, assim, as suas nonne gastronómicas.

O TRENDY Report esteve no evento de apresentação desta nova identidade, onde ficou claro que o objectivo passa por «afastar o restaurante da lógica de pizzaria casual» para entrar num território «mais próximo da restauração italiana contemporânea».

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As pizzas, contudo, continuam presentes, mas já não dominam: agora dividem o protagonismo com entradas de partilha, massas mais elaboradas, carnes de cozedura lenta e combinações que procuram um registo mais urbano, actual e, porque não, indulgente. O tom descontraído da casa continua, ainda, intacto – basta olhar para o menu de almoço, onde o título ‘Fanculo la dieta’ (um sonoro ‘que se f*da a dieta’) funciona quase como manifesto do Malice. Aqui, podemos escolher um de onze pratos principais, uma bebida não-alcoólica e um café, tudo por quinze euros.

Para sentir o pulso à “nova” cozinha do Malice, evitámos as pizzas; o arranque foi feito com Meatballs Nduja & Parmesan que ajudaram logo a perceber o caminho que o restaurante quer seguir. Intensas, densas e reconfortantes, com carne que realmente se sente, longe, por exemplo, da “pasta” amorfa do La Fiorentina, que provámos no final de Abril.

Aqui, a nduja acrescenta um picante fumado que corta bem a gordura do parmesão. É óbvio que existe grande preocupação do Malice em ter sabores subtis: o objectivo, aqui, é dar um (bom) choque imediato. À mesa chegou, também, o Sfizio de Burrata, uma espécie de empanada italiana feita com massa de pizza, a esconder um recheio de mortadela de pistácio, burrata e molho de tomate. Aqui, contudo, pedia-se uma dose maior, pois o “bolo” que chega parece pequeno demaiss para acalmar o apetite pela nova fase do Malice.

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Nos pratos principais, o Nduja Rigatoni a la Vodka é mais um prato que encaixa bem nesta tentativa do Malice em evoluir para algo além da pizzaria tradicional. Servido num tachinho de cobre, o molho surge intenso, cremoso e com um picante persistente, embora sem cair no exagero (dirão alguns), enquanto a vodka ajuda a equilibrar a gordura da salsicha calabresa. Este é um dos pratos que ajuda a definir o restaurante como uma osteria urbana contemporânea.

Num registo mais substancial, de carne pura sem acompanhamento, temos a Costola di Manzo, que acabou por mostrar outra faceta da cozinha: um naco cozinhado lentamente, bastante tenro e fácil de separar do osso. Aqui, tivemos uma abordagem bastante mais séria e a prova de que a mudança de conceito se torna mais evidente: o Malice já não quer apenas servir pizzas rápidas, mas criar uma refeição completa e prolongada.

Mesmo assim, a pizza continua longe de desaparecer. A nova carta mantém uma base italiana assente em massa sourdough (fermentação lenta), mas com uma aparente vontade de ter ingredientes e combinações mais sofisticadas. Há opções como Guanciale, Burrata, Onion, Basil e Pecorino; Cogumelos Trifolati; ou Pumpkin & Spicy Salami Stew, pizzas que nos parecem claramente mais densas, criativas e pensadas para um público que procura algo além da clássica “pizza de bairro”.

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As pizzetas e sanduíches reforçam ainda mais esta diversificação.Não resistimos a pedir a sanduíche Pistachio, que se encaixa numa tendência muito actual da restauração italiana contemporânea: focaccias recheadas com ingredientes ricos e intensos. O recheio de creme de pistácio e burrata resulta numa combinação algo excessiva, mas alinhada com o espírito indulgente que acaba por dominar toda a carta.

Curiosamente, o Malice pareceu-nos menos interessado em reproduzir uma osteria italiana clássica e mais focado em criar uma versão própria, lisboeta e contemporânea do conceito. Existem referências italianas fortes — nduja, burrata, pecorino, anchovas, cavatelli, lasanha bolonhesa — mas muitas vezes reinterpretadas com uma abordagem mais actual.

No fundo, a mudança do Malice para Osteria resolve uma limitação frequente das pizzarias modernas: a dificuldade em ir além da lógica ‘pizza e saída rápida’. Esta nova fase tenta, assim, prolongar a experiência, incentivar a partilha – ao olhar para esta carta, percebe-se que a ambição de Jorge Marques vai bastante além da massa e do forno, ao mesmo tempo que mantém viva a memória das nonne Maria e Alice.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].