Susanne Hägglund, Volvo: «Ter clientes que preferem automóveis a gasolina não nos preocupa»

©Volvo | Susanne Hägglund
©Volvo | Susanne Hägglund

Em entrevista ao TRENDY, a nova managing director da Volvo Portugal traça o panorama da electrificação automóvel e aponta o caminho da marca sueca para os próximos anos. Vai fazer faísca.

Susanne Hägglund chegou a Portugal em 2022 para liderar os destinos da Volvo no País e um dos focos é, como acontece no resto dos mercados onde e marca opera, fazer a transição para uma oferta única de automóveis eléctricos.

Mas, para isso, ainda pode haver um longo caminho a percorrer – a nova managing director da Volvo lembra, por exemplo, que um dos pontos que precisa de investimento é a rede de carregamentos: «É onde Portugal mais terá de melhorar para conseguir uma mudança com sucesso».

Apesar deste “espinho”, a aposta no País é para manter, até porque, segundo Susanne Hägglund, o mercado nacional é «muito importante» para a Volvo – actualmente, é mesmo o oitavo no ranking europeu com «maior penetração de veículos 100% eléctricos» da marca sueca.

A Volvo anunciou que até 2030 quer deixar de ter automóveis a gasolina ou gasóleo. Não têm receio de perder clientes por não terem outras opções? Será que em 2030 a mobilidade eléctrica deixa de ser uma tendência para ser o standard?
Sabemos que existirão alguns clientes que ainda preferem as motorizações ditas tradicionais, mas é algo que não nos preocupa e que não nos irá demover. Precisamos de promover a mudança para a electrificação e, oxalá, seja standard em 2030.

No nosso caso, esta transição vem associada a um compromisso ambiental maior no qual pretendemos ser uma empresa com impacto climático neutro em 2040.

A autonomia é sempre a grande questão neste tipo de veículos: que tipo de novas tecnologias pode haver daqui a dez anos para aumentar este valor?
As marcas automóveis irão continuar a apresentar novidades neste capítulo. Acredito que muitas novidades serão apresentadas nos anos vindouros. Na Volvo anunciámos recentemente que a nossa próxima geração de modelos 100% eléctricos irá recorrer a processos de mega fundição.

Fundir as principais partes da estrutura do solo numa única peça de alumínio reduz o peso, o que, por sua vez, melhora a eficiência energética aumentando a autonomia do automóvel.

©Volvo
©Volvo | O C40 é um dos mais recentes automóveis Volvo a ter apenas motorização eléctrica em Portugal.

Os carregamentos e a disponibilidade da rede também é uma coisa a ter em conta: automóveis eléctricos a mais não será um problema em 2030? A rede e a infraestrutura estarão preparadas para dar energia aos veículos?
A rede de carregamentos é um aspecto fundamental para a transição eléctrica e um dos aspectos onde Portugal mais terá de melhorar para conseguir uma mudança com sucesso. Acredito que a infraestrutura estará preparada, mas terá de ser feito investimento público e privado neste capítulo.

É legítimo pensar que num futuro próximo pode haver um automóvel totalmente feito com materiais reciclados e sem matérias-primas de origem animal. Já que a Volvo deu o exemplo do C40 Recharge, esta será uma tendência para manter no futuro?
O caminho é esse. O compromisso ambiental da Volvo Cars não passa somente pela electrificação e abrange muitas outras componentes. O C40 é o primeiro modelo a concretizar essa tendência de economia circular.

As ambições da Volvo passam por conseguir aumentar, significativamente, a percentagem de materiais reciclados e de base biológica nos automóveis até 2025. As metas definidas são claras e envolvem o incremento de: 25% de plástico reciclado, 40% de alumínio reciclado e 25% de aço reciclado.

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©Volvo | Susanne Hagglund chegou em 2022 ao País para liderar a estratégia da marca sueca no mercado nacional.

Sobre a condução autónoma: a opinião da Volvo é que o ser humano deve ser completamente afastado de todas as decisões no cockpit? Ou teremos sempre uma última palavra a dizer no controlo de um automóvel. A marca é uma das que mais promove o prazer da condução: conduzir um Volvo ou simplesmente ‘andar’ num Volvo – será esta uma mudança de paradigma com a qual estão confortáveis?
Enquanto referência mundial em segurança automóvel, há muito que a Volvo Cars está a trabalhar no sentido de proporcionar uma condução autónoma que seja segura. Sabemos que é uma característica que os clientes valorizam para que seja assim possivel libertar mais tempo e tornar a condução de um automóvel ainda mais conveniente e agradável.

Anunciámos em Janeiro, a introdução uma nova funcionalidade que permite a condução autónoma não assistida (Ride Pilot), que será testada nos estados unidos. O objectivo desta funcionalidade implica que, quando o automóvel está a conduzir sozinho, a Volvo Cars assuma a responsabilidade pela condução, oferecendo ao condutor conforto e paz de espírito.

Um dos objectivos é lançar um modelo eléctrico por ano: isto não poderá ser confuso para quem quer comprar um automóvel e estar sempre a ver novidades todos os anos? É uma estratégia como as das marcas de smartphones? Qual é a vantagem/desvantagem desta decisão?
Não creio que seja uma desvantagem uma vez que estamos a falar de propostas distintas. Começámos por apresentar o XC40 Recharge, que é um modelo SUV compacto, a que se seguiu o C40 Recharge, um automóvel coupé. Nos anos vindouros iremos apresentar uma gama de novos modelos completa e variada que irá enriquecer a nossa oferta permitindo aos clientes uma maior escolha que seja capaz de satisfazer as suas necessidades de mobilidade.

Vamos ter, de facto, mudanças significativas de paradigma: os automóveis Volvo do futuro vão evoluir continuamente, por exemplo com actualizações de software Over The Air (OTA), como qualquer smartphone, o que permite melhorias contínua nos mesmos, ao longo do tempo.

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©Volvo | O XC40 Recharge chegou em 2021 – foi o primeiro eléctrico da marca a ser vendido em Portugal.

Que ideia tem a Volvo sobre o mercado português? Qual é que acham que é a melhor estratégia para vender automóveis eléctricos em Portugal?
Portugal é um mercado muito importante para a Volvo Cars. É notório que o cliente português tem uma apetência pelos automóveis eléctricos, mas algum receio em relação à infraestrutura instalada. No entanto é importante referir que a Volvo Car Portugal é actualmente o oitavo mercado europeu com maior penetração de veículos 100% elétricos no portfolio Volvo.

Este é um sinal claro de que os consumidores em Portugal estão alinhados connosco no que diz respeito à mobilidade elétrica. Um dos pontos chave da comunicação terá de passar por mostrar às pessoas que a autonomia actual dos modelos da Volvo já é suficiente para as suas necessidades diárias. Os nossos automóveis 100% eléctricos têm uma autonomia de 400 km e os modelos plug-in foram recentemente melhorados apresentando autonomias já próximas de 100 km.

Ricardo Durand
Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].