(Muito) antes da enchente para ver Florence + The Machine ou Buraka Som Sistema, o último dia (esgotado) do NOS Alive começou com música e stand-up para conquistar quem chegou cedo a Algés.
O terceiro e último dia começou longe da euforia dos cabeças de cartaz: foram três mulheres a dar o primeiro sinal de vida nos palcos secundários do festival. O pontapé de saída coube a Rita Cortezão, no Heineken; Esteves sem Metafísica, no Coreto; e Catarina Rocha, no Palco Comédia.
Da delicadeza da canção de autor à poesia transformada em música e ao stand-up inspirado nas pequenas “comichões” do dia-a-dia (à atenção de Pedro Boucherie Mendes e do seu ‘Irritações’), estas actuações provaram que nem tudo no NOS Alive se mede pelas multidões ou pela potência das colunas.
Rita Cortezão: um piano, um disco e um palco demasiado grande
A vencedora da edição de 2026 do Festival Termómetro (o prémio é, precisamente, actuar num grande festival) chegou ao palco Heineken poucos meses depois da edição de ‘Tudo, Um Pouco‘, o seu álbum de estreia. Neste disco, o piano assume o papel principal e serve de base a canções que falam de relações, inseguranças e pequenos episódios do quotidiano, sempre de forma muito pessoal.

Foi precisamente este universo que Rita Cortezão levou para Algés. Sozinha, acompanhada apenas de um piano electrónico Arturia, apresentou um alinhamento composto exclusivamente por temas do disco de estreia. A abertura fez-se com ‘Um Pouco de Tudo’, onde canta «isso não está bem, tu nunca estás bem» antes de concluir que «um pouco de tudo é tudo o que eu peço».
Em ‘Lisbolha’, uma canção que oscila entre o desejo de fugir e a estranha atração da distância, Rita diz que quer «fugir», mas não sabe de quê, antes de concluir que «toda a distância é chamamento»; em ‘O Tempo Que Fica’, um tema produzido por Benjamim, ficou confirmada a personalidade mais indie pop do seu trabalho.
Com percurso ainda muito curto para um palco com a dimensão do Heineken, Rita Cortezão teve pela frente um ambiente demasiado disperso para um concerto que vive dos silêncios, das palavras e das pequenas nuances. Havia quem escutasse com atenção, mas muitos limitavam-se a usar a música como banda sonora enquanto trocavam mensagens no WhatsApp ou viam Reels no Instagram.
Esteves sem Metafísica: a literatura subiu ao palco
Teresa Esteves da Fonseca escolheu apresentar-se ao mundo como Esteves sem Metafísica, um nome “roubado” a ‘Tabacaria’, de Álvaro de Campos. Mas esta não é apenas uma homenagem a Fernando Pessoa: é, também, uma pista para perceber um projeto que nasceu primeiro nos livros e só depois encontrou lugar na música. Esta acaba por ser uma coincidência curiosa num festival que, na véspera, tinha recebido uma conversa precisamente dedicada a este tema: ‘Das Letras à Música’, no Palco Literário.

No Coreto, a cantora e escritora trouxe a matéria-prima do álbum ‘de.bu.te.’ através de uma sonoridade onde convivem pop, jazz e uma escrita assumidamente poética. As canções recusam refrões fáceis e preferem construir-se verso a verso, com Esteves sem Metafísica a deixar espaço para que a palavra seja o fio condutor dos seus concertos.
O arranque foi com ‘Tenta’, que abre com «Hey baby, take a walk on the wild side», um piscar de olho a Bob Dylan, antes de encontrar identidade própria, e ‘Montanha Isolada’, onde versos como «sabes bem o que me desperta quando quero dormir» ou «sei que isso chega para ti» resumem bem a intimidade de ‘de.bu.te.’. Houve groove, apontamentos de jazz e melodias delicadas, mas foi a forma como as palavras ocuparam o centro do palco que deu vida à passagem de Teresa Esteves da Fonseca pelo NOS Alive.
Catarina Rocha: quinze minutos para rir das pequenas tragédias da vida
No Palco Comédia, Catarina Rocha fez aquilo que primeiro a tornou conhecida no TikTok: transformar pequenas irritações em histórias com que todos nos identificamos. Os grandes planos do TikTok deram lugar ao palco, mas o tom manteve-se intacto. Num quarto de hora, desmontou os dramas da vida adulta com uma mistura de sarcasmo, autoironia e observação que explica a rapidez com que cresceu nas redes sociais antes de chegar ao stand-up.

«Despedi-me do meu trabalho corporativo, não uso soutien há cinco meses, mas ainda não contei à minha mãe», confessou, acrescentando pouco depois que na sua idade (pós-30), «mentir compensa». As mães regressaram mais à frente, quando Catarina explicou que qualquer informação partilhada num almoço de família acabaria inevitavelmente por ser usada contra si. Nem a tia, professora de Filosofia, escapou: quando lhe contou que queria fazer stand-up, ouviu simplesmente que «não tinha graça». O público apressou-se a desmentir esta teoria.
Outro dos seus takes mais fortes foi dedicado às despedidas de solteira. Catarina contou ter visto uma noiva com uma t-shirt onde se lia ‘Gluten Free Bride’: «Não percebi se se estava a despedir da vida de solteira ou do pão. O noivo seria um pãozinho sem sal?», perguntou.

Para Catarina, a despedida ideal seria bem diferente: «Cancelar a festa, ir ao cinema ver ‘Toy Story’ e estar na cama às dez da noite». Foi um final perfeitamente coerente para alguém que prova que o melhor stand-up nasce das manias mais banais.


















