As palavras também têm um palco no NOS Alive: Luísa Sobral e Afonso Cruz falaram sobre o que une canções a romances

Mais que explicar como nasce uma canção ou um romance, a conversa entre Luísa Sobral e Afonso Cruz acabou por mostrar que estas fronteiras são menos rígidas que parecem.

©TRENDY Report | Palco Literario
©TRENDY Report

Há quem escreva romances e quem componha canções. Depois há quem faça as duas coisas: Luísa Sobral e Afonso Cruz partilharam o seu processo criativo no NOS Alive.

Um festival também se faz de momentos menos óbvios. No NOS Alive, já sabíamos que iria haver uma pequena “ilha” no meio de um mar de música dedicada à pausa e à palavra. O Palco Literário nasceu ao pé de outro que foge um pouco à regra, o Coreto, e no segundo dia recebeu Pedro Boucherie Mendes, Luísa Sobral e Afonso Cruz para conversar ‘Das Letras à Música’.

Luísa Sobral é uma das cantautoras portuguesas mais reconhecidas da actualidade e prepara o lançamento do seu segundo romance, depois do sucesso de ‘Nem Todas as Árvores Morrem de Pé’. Afonso Cruz é um dos escritores portugueses mais premiados das últimas décadas, mas começou por sonhar com uma carreira na música e chegou mesmo a integrar uma banda (os Ensopado de Borrego) antes de se dedicar definitivamente à literatura. No fundo, ambos dominam os dois lados da criação: escrever para ser lido e escrever para ser cantado (ou, melhor, ouvido).

Foi precisamente esta dupla identidade que marcou o tom desta conversa ao final da tarde, quando todos os outros palcos se calaram para ouvirmos palavras em vez de música. Quando Pedro Boucherie Mendes perguntou como nasce uma ideia, Luísa Sobral respondeu que tudo começa nas palavras mais simples: «Gosto muito da forma como o Chico Buarque e o Caetano Veloso conseguem pegar em palavras corriqueiras e transformá-las em poesia. É essa a arte de que mais gosto».

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Ainda assim, Luísa Sobral admitiu que a dúvida sobre a aceitação do público nunca desaparece: «Pergunto muitas vezes a mim própria se aquilo que escrevo é chato. Não quero aborrecer as pessoas». Já na música, o processo é quase intuitivo. Entre risos, a cantora confessou recorrer ao que apelidou de “técnica da raspadinha”: senta-se ao piano, começa a cantar palavras ao acaso e espera que, de repente, alguma combinação faça sentido.

A conversa acabaria inevitavelmente por passar por ‘Amar Pelos Dois’, a canção escrita para Salvador Sobral que deu a Portugal a primeira (e, até agora, única) vitória na Eurovisão, em 2017. Luísa Sobral revelou que a inspiração nasceu depois de ouvir ‘Practical Arrangement’, de Sting, sobretudo pela ideia de altruísmo presente na letra: «Guardo palavras e ideias de outras canções para mim, para um dia as usar. Foi isso que aconteceu».

Mas, quando uma canção chega ao público, cada pessoa passa a senti-la de forma diferente e Luísa Sobral ainda hoje se diverte com a forma como muitos a interpretam: «Há pessoas que a cantam em casamentos. Claramente não perceberam a mensagem». Ainda assim, aceita que cada um acabe por «ter a sua própria leitura».

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Afonso Cruz descreveu um percurso quase inverso. Antes de publicar romances, acreditava que o seu futuro passaria pela música: «Tive uma banda antes de ser escritor. Pensava que podia ser músico». Hoje, porém, sente que a literatura ocupa quase todo o espaço criativo: «A literatura é muito solitária. É uma arte muito ciumenta».

Apesar desta diferença, ambos acabam por viver diariamente entre duas formas distintas de escrita. Luísa Sobral explicou que consegue dividir naturalmente o tempo entre a composição e a prosa: «De manhã escrevo música e à tarde escrevo romances». Quando surge uma ideia, toma nota imediatamente, seja a escrever, a cantar ou simplesmente a dizê-la em voz alta.

Questionados sobre filmes e livros protagonizados por músicos, as respostas voltaram a fugir ao esperado. «Quando somos músicos, os músicos deixam de ser fascinantes», respondeu Luísa Sobral. Apesar disso, confessou que o recente filme sobre Bob Dylan teve um efeito imediato: «Quando saí do cinema, só me apetecia ir compor». Em sentido contrário, contou que praticamente deixou de ouvir Chet Baker depois de ver um documentário sobre o músico.

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Afonso Cruz também evita romances ou biografias, porque prefere ensaios e livros técnicos sobre música: «Interessa-me mais perceber como as coisas funcionam do que o lado artístico». Na literatura faz precisamente o oposto: procura autores «muito descritivos» para compensar aquilo que considera ser uma «lacuna» da sua própria escrita. Quanto à música, deixou uma confissão que arrancou sorrisos na plateia: «Acho que fiquei parado nos anos 50».

A conversa passou ainda pelos festivais. Luísa Sobral prefere eventos de «menor dimensão», onde o público vai «sobretudo para ouvir música», mas elogiou a aposta do NOS Alive em novos espaços culturais: «O Palco Coreto e o Palco Comédia vieram enriquecer muito o festival». Quanto aos hábitos culturais, diz trocar facilmente uma série por um livro («se vejo séries, não leio») e rejeita por completo a ideia de guilty pleasures: «Se é um prazer, não deve provocar culpa».

No final, e questionados por Pedro Boucherie Mendes sobre o cliché dos ‘projectos para o futuro’, uma pergunta que se «costumava fazer nas entrevistas do antigamente», Luísa Sobral disse estar a terminar o seu segundo romance e a preparar o lançamento do livro ilustrado ‘Lágrimas de Caimão’, ilustrado pelo filho; em Outubro, vai ainda editar o seu novo disco, ‘Cartas de Desamor’. Já Afonso Cruz acaba de entregar um novo romance à Companhia das Letras, um «spin-off da Odisseia», que chegará às livrarias no Outono e refletirá, de forma indireta, a realidade política mundial.

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Mais que explicar como nasce uma canção ou um romance, a conversa entre Luísa Sobral e Afonso Cruz acabou por mostrar que estas fronteiras são menos rígidas que parecem e que escrever uma melodia ou uma página pode começar exactamente no mesmo lugar: numa ideia, numa palavra ou numa frase que, por qualquer razão, se recusa a sair da cabeça.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].