Há uma razão para os filmes de Natal não estrearem em Agosto: a razão é simples e chama-se ‘contexto’.
‘Santo António, O Casamenteiro de Lisboa’, o novo filme de Ruben Alves, realizador de ‘A Gaiola Dourada’, promete reunir vários ingredientes capazes de conquistar o público português. Lisboa, romance, humor, tradições populares e um elenco que inclui Rita Blanco, Joaquim de Almeida (precisamente, a dupla daquele filme) e Joaquim Monchique.
O problema é que, quando ‘Santo António, O Casamenteiro de Lisboa’ estrear, em Setembro (ainda sem um dia concreto, mas terá de ser 3, 10, 17 ou 24) os manjericos já não vão estar a espalhar o seu perfume pelas ruas, os bairros vão estar calados e as sardinhas já terão desaparecido das grelhas. Os arraiais vão ser apenas uma memória distante, assim como os próprios casamentos de Santo António, que acontecem sempre a 12 de Junho.
Existem géneros profundamente ligados ao calendário, especialmente os filmes de Natal, que começam a estrear logo em Novembro (até porque, em Outubro, há ruas que começam logo a ficar iluminadas). Não é apenas marketing, é estado de espírito. Ver ‘Sozinho em Casa’ em Dezembro não é a mesma coisa que em Agosto (heresia!). O cinema funciona, muitas vezes, como uma extensão emocional daquilo que estamos a viver.
Os Santos Populares são uma das maiores manifestações culturais do País: puxam milhares de pessoas todos os anos para os arraiais (alguns onde se se pode dançar com os olhos), bairros históricos, ruas e praças. Por isto, a chegada de mais um filme inspirado neste universo (como foi ‘O Pátio das Cantigas’, em 2015, com uma estreia mais legítima, em Julho) parece fazer todo o sentido.
A dúvida surge apenas quando olhamos para o mês da estreia. Imaginemos duas situações: na primeira, o filme de Ruben Alves estrearia durante o mês de Junho. Neste caso, seria como viver no cenário do filme e a ligação era totalmente imersiva – depois de sair de uma sessão, podíamos encontrar nas ruas o ambiente que acabávamos de ver no ecrã.
Na segunda, com a estreia a acontecer em Setembro, Lisboa já não cheirará bem à Lisboa dos Santos; ver um filme destes quase três meses depois da época que lhe dá vida vai ser uma experiência deslocada, como um glitch na Matrix, o que levanta dúvidas sobre a forma como o público o pode receber.
É mais que provável que a escolha da data esteja relacionada com factores de distribuição, concorrência ou estratégia comercial. E é perfeitamente possível que ‘Santo António, O Casamenteiro de Lisboa‘ encontre o seu público independentemente do mês da estreia. Afinal, as boas histórias sobrevivem ao calendário e Ruben Alves tem muito crédito em Portugal, muito por culpa da peça de relojoaria que é ‘A Gaiola Dourada’.
Ainda assim, os filmes passam a ter uma dimensão especial quando chegam ao público no momento certo. Tal como ninguém pensa em lançar um filme de Natal no pico do Verão, um filme sobre Santo António teria de chegar às salas quando Lisboa está a marchar nas ruas de arquinho e balão. Há histórias que pertencem a uma época do ano é que o mês de estreia é quase tão importante como o próprio argumento.


















