Basta olhar pelas janelas deste restaurante, no Largo da Academia das Belas Artes, para perceber o que vale o Tágide; na carta está o outro grande argumento.
Da sala avistam-se a Baixa, o Castelo de São Jorge e o Tejo, num dos panoramas mais desafogados da cidade. Mas quem entra hoje neste histórico restaurante encontra mais que uma paisagem. Nos últimos anos, a cozinha mudou, o conceito evoluiu e a intenção é clara.
A ideia é mostrar que é possível fazer «gastronomia contemporânea sem perder de vista os sabores que fazem parte da identidade portuguesa», assegura Suzana Barros, que está à frente do Tágide há duas décadas, na antecâmara de um almoço de imprensa para assinalar os oitenta anos do restaurante.
Apesar de praticar preços compatíveis com o segmento da alta gastronomia — a partir de cerca de cinquenta euros por pessoa, sem vinhos — Suzana Barros evita a expressão ‘fine dining’. Prefere falar de uma «cozinha com portugalidade», onde os ingredientes nacionais são os protagonistas, mas tratados com uma abordagem «mais actual».

Essa filosofia está, hoje, nas mãos do chef brasileiro Hugo Rochi, que, em vez de desconstruções excessivamente técnicas ou exercícios de estilo, parte de ingredientes ligados ao receituário português, mas a tradição não fica à porta do Tágide: serve, antes, como ponto de partida para novas combinações e apresentações mais cuidadas.
A história do restaurante acompanha, de certa forma, a evolução da restauração lisboeta. Inaugurado em 1946 como Restaurante-Boîte Tágide, recebeu artistas como Charles Aznavour, Gilbert Bécaud ou Simone de Oliveira, numa época em que a música fazia parte da experiência.
O conceito de cabaret foi abandonado em 1970 para dar lugar exclusivamente à restauração; nessa altura, o espaço foi remodelado e recebeu painéis de azulejos do século XVIII, fontes em pedra do século XVII e esculturas mitológicas em tamanho natural de «um palacete demolido». Uma década depois, o Tágide tornou-se o primeiro restaurante de Lisboa com estrela Michelin, distinção que manteve entre 1981 e 1992.

Além das escolhas à carta, o restaurante foca-se em dois menus de degustação. O Camões permite escolher livremente uma entrada, um prato principal e uma sobremesa de toda a carta, incluindo o couvert, por 68 euros, podendo ser complementado por uma harmonização de quatro vinhos por mais 37 euros.
Já o Tágide, por 89 euros, tem uma sequência de seis momentos pensada para «dar a conhecer a filosofia da cozinha», com opções de harmonização vínica de quatro ou cinco momentos por 37 ou 47 euros, respectivamente.
Neste almoço, os pratos saíram precisamente deste menu: o primeiro foi o Sarrajão Curado, Tomate, Pimento Vermelho, Broa e Manjericão (foto em cima). Delicado, fresco e equilibrado, foi acompanhado por um Muros Antigos branco, fresco e aromático.

Seguiu-se a Barriga de Leitão Fumada com Favas, Crumble de Chouriço e Molho de Pimenta (foto de destaque). O creme de fava apresentava uma textura muito agradável, num prato com boa execução, mas o molho de pimenta acabava por ser mais intenso do que seria desejável. A harmonização ficou a cargo do espumante Blanc des Blancs Tágide, desenvolvido em parceria com a Adega Mãe.
A sobremesa foi, sem dúvida, o momento mais surpreendente da refeição. À primeira vista, o Ovo Dourado (foto em cima) parece exactamente isto: um ovo. Só quando se parte a fina casca de chocolate branco é que o interior se revela, com um molho de manga a recriar a gema e um creme de manga e chocolate branco no papel da clara.
Este foi, talvez, o prato que melhor prova a evolução da cozinha do Tágide: um exercício de criatividade bem conseguido, tanto pela componente visual como pelo equilíbrio de sabores. É, facilmente, uma das melhores sobremesas que provámos este ano.

Mas a experiência não termina no restaurante principal. No piso inferior funciona o Tágide Wine & Gastrobar (foto em cima), onde o ambiente é mais descontraído e onde se realizam brunches aos Sábados (37 euros), acompanhados por uma actividade de pintura em cerâmica. A iniciativa repete-se também às Quartas-Feiras, ao jantar, a partir das 18 horas, por 39 euros.
A celebrar 80 anos de história, o Tágide prepara ainda um blend exclusivo desenvolvido em parceria com a Companhia Portugueza do Chá, uma forma de assinalar a efeméride e acrescentar mais um capítulo à longa história de um dos restaurantes mais emblemáticos de Lisboa.


















