Nick Cave abriu o NOS Alive em estado de graça: o evangelho rock dominou o primeiro dia, mas houve mais para ouvir com atenção em Algés

Aos 68 anos, o australiano é um dos mais carismáticos "animais" de palco da música contemporânea.

©TRENDY Report | Nick Cave hero NOS alive 26
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No primeiro dia do NOS Alive houve espaço para introspecção, electrónica e rock old school.

Apesar de ser o único dos três dias que não esgotou, o Passeio Marítimo de Algés apresentou-se muito composto, com milhares de pessoas a encherem os diferentes palcos desde o final da tarde. Com os dias 10 e 11 de Julho já totalmente esgotados, tudo indica que o recinto ficará completamente cheio até ao encerramento da edição deste ano.

O grande protagonista da noite foi, sem surpresas, Nick Cave. Aos 68 anos, o australiano é um dos mais carismáticos “animais” de palco da música contemporânea: deu num concerto de mais de duas horas (o maior dos três dias de festival). Ao longo destes 120 minutos, percorreu diferentes fases da carreira dos Bad Seeds e alternou momentos de grande intensidade com outros de profunda introspecção.

A abertura foi explosiva, ao som de ‘Get Ready for Love’; acompanhado por um poderoso coro gospel (que se manteria ao longo de toda a actuação), Nick Cave entrou em palco com a energia que caracteriza esta canção desde o álbum ‘Abattoir Blues / The Lyre of Orpheus’, de 2004. O refrão, quase litúrgico (‘Get ready for love! Praise Him! / Get ready for love! Praise Him!’) deu o mote para um concerto que nunca perdeu intensidade.

©TRENDY Report | Nick Cave NOS alive 26
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Seguiram-se temas como ‘Tupelo’, ‘From Her to Eternity’, ‘Wild God’, ‘Jubilee Street’ e ‘O Children’, uma das canções mais marcantes da sua carreira recente. A música, que reflecte sobre a culpa herdada entre gerações e o peso de deixar um mundo imperfeito aos mais novos, voltou a assumir um forte impacto emocional ao vivo. ‘O Children’ deu-nos a certeza de que Nick Cave continua a ser um dos únicos a conseguir transformar narrativas sombrias em momentos de enorme beleza.

Com ‘Bring Your Spirit’, um dos temas de ‘Wild God’, chegou outro momento hipnótico, quase como um convite colectivo à esperança e à transformação, mostrando a forma como Nick Cave tem vindo a trocar parte da escuridão que marcou os seus primeiros discos por uma visão mais espiritual da condição humana. A voz gutural e a sua teatralidade dão-lhe sempre aquela aura de figura quase lendária do rock alternativo.

Já na parte final, ouvimos ‘Push the Sky Away’, uma das mais belas declarações de amor criadas pelo músico australiano. Lançada em 2013, a canção é frequentemente associada à relação com a mulher, Susie Cave, e fala da necessidade de proteger aquilo que realmente importa, mesmo quando tudo à volta parece desmoronar-se.

©TRENDY Report | Xiniobi NOS alive 26
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O encerramento ficou entregue à simplicidade de ‘Into My Arms’: ao piano, Nick Cave despediu-se com uma das mais emocionantes baladas da música contemporânea e transformou o palco principal num espaço surpreendentemente intimista. Foi um final à altura de um concerto onde a intensidade nunca precisou de depender do volume.

Mas, como sabemos, o NOS Alive é muito mais do que o seu cabeça-de-cartaz, e o primeiro dia mostrou precisamente essa diversidade. No Palco Heineken, os Dogstar, banda onde Keanu Reeves assume o baixo, voltaram a mostrar que vivem muito além da curiosidade mediática em torno do actor. O trio apresentou o rock alternativo melódico que caracteriza os seus trabalhos mais recentes, aqui num ambiente muito descontraído e com uma sonoridade onde cabem influências do grunge, do rock americano dos anos noventa e da pop alternativa.

Também muito aguardado era o regresso dos Alabama Shakes. Liderada pela poderosa voz de Brittany Howard, a banda norte-americana voltou a cruzar soul, blues, rock e gospel num espectáculo intenso; a sua capacidade vocal continua a ser o principal elemento diferenciador de uma banda que tanto pode soar delicada como detonadora.

©TRENDY Report | Rita Maia NOS alive 26
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Num registo completamente diferente, Xinobi levou ao palco o seu formato ‘LIVE’, que vai muito além de um simples DJ set. O resultado foi uma experiência orgânica, onde a electrónica ganhou uma dimensão muito mais próxima de um concerto tradicional, até porque teve a companhia de uma voz feminina.

Também Rita Maia mostrou porque é hoje uma das DJ portuguesas com maior projecção internacional. A radialista e produtora, radicada entre Lisboa e Londres, apresentou um espectáculo marcado pela mistura de sonoridades de Portugal, Angola, Cabo Verde e Brasil, cruzadas com jazz contemporâneo, broken beat e música electrónica. A presença de uma rapper brasileira reforçou ainda mais a componente multicultural de uma actuação às 00:30 que se ressentiu muito com a falta de público.

O cartaz do primeiro dia ficou ainda marcado pela actuação de Hetta, um dos novos nomes da pop alternativa nacional, e pelos Twenty One Pilots, que encerraram a programação do Palco Heineken com o espectáculo visual e energético que os tornou uma das bandas mais populares da actualidade.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].