Crítica: A Febre do Mississipi

Este é um filme sobre jogadores, mas não é sobre póquer, é sobre dois amigos recentes que partem numa viagem de carro.

A primeira coisa que é preciso saber sobre este filme é que o póquer está muito longe de ser o centro das atenções, e tirando uma ou outra mão disputada ao longo do filme, praticamente não se vê nada do que é jogar póquer. A trama é mais profunda que um simples jogador em busca do sucesso, conduzida ao estilo dos anos 70.

Gerry (Ben Mendelsohn) é, tal como diz na sinopse, um jogador de póquer com talento, mas está muito longe de ser um profissional ou de conseguir ganhar a vida a jogar. O foco principal está no seu problema com apostas, já que é aqui que Gerry enterra a sua vida. Corridas de cavalos, corridas de cães, futebol americano, “o próximo homem que sair da casa-de-banho vai ter óculos”, tudo serve como aposta. Às vezes ficamos na dúvida se o objectivo da personagem principal é realmente perder dinheiro.

Existe o hábito de retratar os aficcionados em póquer como viciados, e apesar de nos primeiros minutos darem-nos a ideia de que o filme vai mais uma vez explorar esta decadência, a verdade é que o póquer é a única coisa em que Gerry vai conseguindo manter o discernimento.

A personagem deve dinheiro a toda a gente e leva uma vida triste e solitária, quando faz um novo amigo (Ryan Reynolds) que perante uma total indiferença para com o dinheiro, acaba a ganhar quase sempre, em quase tudo o que se mete. Este novo amigo cheio de recursos e lábia tenta chamar a atenção ao protagonista sobre o seu vício, mas acaba por acompanhá-lo numa demanda por salas de póquer ao longo da descida do Mississipi, em busca de um jogo de grandes valores.

Uma lindíssima Sienna Miller faz uma curta, mas profunda aparição que é extremamente importante para encaixarmos Curtis (Ryan Reynolds) na sua personalidade de “fugitivo”. A acompanhá-la está uma igualmente bela, mas com aparência demasiado inocente Analeigh Tipton. Temos dificuldade em compreender como a personagem de Analeigh (Vanessa) se interessa por Gerry, mas ela eleva-nos a opinião sobre ele, ainda que por pouco tempo.

A Febre do Mississipi - Simone

O filme não prima pela quantidade de acção e a profundidade é toldada pela pouca simpatia que nutrimos por um viciado que não tem uma boa acção e mente ao próprio companheiro de viagem. O roubo também acaba por fazer parte da viagem, o que nos faz desgostar ainda mais da dupla, que segue directa para mais uma aposta nas corridas de cavalos com o pouco que conseguiu arranjar! Mesmo assim não conseguimos desprender os olhos do ecrã para descobrir o que vai acontecer a seguir.

Quando Curtis deixa o seu companheiro de viagem descobrimos que além de ligeiramente louco, tem uma necessidade de autodestruição que o leva a ser agredido, só porque sim. O filme termina sem que consigamos perceber o que move Curtis para além do desejo de se manter em movimento, mas é também isso que o torna atraente.

Acabamos por ficar bastante agarrados, sempre à espera de acção ou de algum acontecimento especial, mas não é o tipo de filme que procuro no cinema: faz mais sentido alugá-lo para ver em casa. Especialmente porque a meio a história ainda não tinha trazido nada de novo aos filmes sobre viciados em jogo, que é o foco principal, apesar de o póquer ser o jogo usado para alcançar o objectivo: pagar a todos os fiadores.

Mas ao contrário do que é mais comum na vida de um viciado em jogo como o retratado no filme, os dois terminam em grande com uma maré de sorte que os deixa ricos… mas perante um “dobro ou nada”.

Saímos da sala de cinema com um misto de irritação e esperança, já que a aposta é idiota e o resultado demasiado cinematográfico, mas ao mesmo tempo parece ter havido uma cura do protagonista. No entanto, continua a faltar o momento de profundidade que nos é prometido do início ao fim.

Os dois actores são irrepreensíveis e encarnam as personagens na perfeição, é o argumento que não lhes permite atingir a profundidade que seria de esperar num filme tão virado para o drama. Ainda assim, o realismo e sentimentalismo estão presentes, de uma maneira estranha e intrigante, sustentada pela camaradagem das duas personagens.

Além das excelentes performances, do toque “road-trip”, “gambling excursion” e “bro-mance”, existe ainda uma banda sonora baseada nos Blues do sul que facilmente vale as quase duas horas de filme.

Márcia Campana
Começou como jornalista em 2011 na revista PCGuia e em 2013 tornou-se editora do programa de televisão LOGIN PCGuia. É apaixonada por novas tecnologias e adora moda e decoração. As suas outras paixões incluem os animais, bons restaurantes e, como a maioria das mulheres, sapatos!