Crítica: O Amor é Lindo… Porque Sim!

Depois de Florbela, Vicente Alves do Ó apadrinha a estreia no cinema de vários alunos (finalistas e não) da escola de actores ACT. O filme, muito centrado no amor, conta uma história simples onde o humor é um dos ingredientes principais.

Histórias de famílias tipicamente portuguesas onde o amor conduz o guião a desfechos mais ou menos esperados não são uma coisa nova no cinema português. Vimos isso em Sangue do Meu Sangue (João Canijo, 2011) e também, ainda que menos marcante, em La Cage Dorée (Ruben Alves, 2013), dois filmes muitíssimo superiores a este de Vicente Alves do Ó, quer na consistência do guião, quer no desempenho dos actores.

Enquanto O Amor é Lindo… Porque Sim! parece mais um argumento de telenovela adaptado a duas horas de fita, os outros dois foram pensados exactamente para o fim que conhecemos: as salas de cinema. A explicação não é muito difícil de encontrar: este filme de Vicente Alves do Ó é mesmo aquilo que foi dito na sua apresentação, no Cinema São Jorge – «não é um filme profissional, mas é feito por profissionais».

Isto acaba por definir, depois, tudo aquilo que vemos no grande ecrã, uma história que se desenrola (e que foi filmada) a um ritmo de trabalho de final de curso de uma escola de actores. E é precisamente neste campo que se sente mais isso. Apesar de esforçados, os desempenhos dos alunos (muitos deles tiveram aqui a sua primeira experiência em cinema ou mesmo frente a uma câmara) não convencem. É o que é: textos decorados e ditos, muitas vezes sem a expressão exigida e o ritmo certo.

Durante o filme, é evidente que há apenas um destaque entre estes alunos da ACT: a personagem de Amélia, Inês Patrício, que se revela uma verdadeira mulher furacão, mas que começa por ser uma piegas. É mesmo notável o desenvolvimento pessoal de Amelia ao longo do filme, de como de uma rapariga frágil e cheia de dúvidas sobre si ganha uma personalidade que acaba por ser a força do filme.

Vicente Alves do Ó esteve bem numa coisa: convidou actores experientes para guiar os jovens aspirantes e dar ao filme um conjunto de padrinhos, para justificar a chegada aos cinemas com algum destaque. Maria Rueff (Gigi, a mãe de Amelia) é a actriz que mais se destaca e é ela que “salva” o filme várias vezes com os seus comentários indelicados e inconvenientes, que vão arrancar várias gargalhadas nas salas.


Veja o vídeo no canal de YouTube do TRENDY.


Ana Brito e Cunha (Dalila) é outra destas “âncoras” de O Amor é Lindo… Porque Sim!, ao desempenhar o papel de uma psicóloga que ajuda, numa primeira fase, Amelia a lidar com a separação do seu namorado; e depois com a mãe, Gigi, para falar sobre os problemas familiares.

É notório que O Amor é Lindo… Porque Sim! foi um filme feito para agradar ao grande público. Não é um argumento escrito para elites, uma vez que tem muito o ritmo de novela, o produto de entretenimento mais consumido em Portugal. Com uma história já muito vista assente na dualidade amor/desamor, este trabalho em vídeo de fim de curso vai ter os seus milhares de fãs.

O mais irónico é que mesmo assim, e com todas as limitações, O Amor é Lindo… Porque Sim!, é um projecto com qualidade infinitamente superior aos dois autênticos atentados à sétima arte nacional que são os dois mais recentes filmes de Leonel Vieira, O Leão da Estrela e O Pátio das Cantigas. E isso tem de ser (muito) valorizado e servir para uma reflexão sobre o que é que define um bom produto de cinema.

Mas o que vai mesmo decidir se ‘O Amor é Lindo’ (um nome muito pobre, mesmo para um filme tão simples) vai ser o marketing. E aí, já há uma coisa que pode fazer a diferença: o cartaz do filme é uma recriação bem pensada do usado em La Cagee Dorée o que pode, pelo menos, fazer com que as pessoas recuperem a imagética que têm do filme de Ruben Alves e que isso as leve ao cinema, por arrasto.

Amor Cage

Ricardo Durand
Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].