O Teatro do Bairro veste-se de gala para uma cerimónia de enganos: em ‘O Casamento de Fígaro’, o poder é um convidado inconveniente

Estreada em Paris em 1784, cinco anos antes da Revolução Francesa, a peça expõe os privilégios de uma aristocracia que toma a obediência dos outros como um dado adquirido.

©TRENDY Report | Casamento Figaro 1
©TRENDY Report

António Pires encena e usa a tradução de Luís Miguel Cintra numa comédia de ritmo rápido. Será que continua a haver actualidade na peça de Beaumarchais?

O cenário é minimalista, mas os elementos cénicos e os figurinos mantêm-nos na época do dramaturgo francês. A acção avança depressa, com bom tempo humorístico e um elenco de várias gerações; em ‘O Casamento de Fígaro’, a contenção do espaço dá muito eco às palavras, aos actores e… aos equívocos. E também a uma pergunta que acompanha esta comédia: quanto mudou o mundo de quem acha que pode comprar tudo?

António Pires não hesita na resposta: «Há coisa mais actual que gente com poder fazer o que lhes apetece?» A resposta está, para o encenador, no comportamento do Conde Almaviva (Dinis Gomes), que confunde a posição social com uma autorização para dispor da vida alheia. «Ele acha que pode comprar tudo, que pode fazer tudo», explica ao TRENDY Report. Mas reconhecer este comportamento inconveniente basta para tornar actual uma peça do século XVIII? Ou será necessário perceber também o que mudou na capacidade de resistir?

Antes de entrar nesta discussão, convém esclarecer que este Fígaro não canta. O título pode fazer pensar nas ‘Bodas’, a ópera de Mozart com libreto de Lorenzo Da Ponte, estreada em 1786 a partir da comédia de Beaumarchais. Contudo, aqui, temos uma peça de teatro com 130 minutos, sem interpretações musicais.

©TRENDY Report | Casamento Figaro
©TRENDY Report

A história começa com um casamento em perspectiva e um obstáculo pelo caminho. Depois de ter ajudado o Conde a conquistar Rosina, em ‘O Barbeiro de Sevilha’, Fígaro (Francisco Vistas) quer casar com Susana (Vera Moura). Só que Almaviva também deseja a noiva e conta com um velho direito senhorial para se antecipar ao criado. Susana recusa, Fígaro também e a Condessa junta-se à conspiração.

Esta inversão “alimenta” uma sucessão de enganos, esconderijos, cartas e trocas de identidade. Na encenação de António Pires, a rapidez da acção e o acerto do tempo cómico dão um bom passo a este “jogo”; o cenário, apesar de reduzido ao essencial, tem elementos (leia-se, ‘mobília’) que ajudam a situar a representação e os figurinos acompanham esta coerência de época. Ao contrário das referências contemporâneas que vimos em ‘Macbeth’, no Teatro Nacional D. Maria II, esta encenação mantém a sua linguagem visual próxima do tempo da história.

Assim, é muito pelos comportamentos das personagens que este ‘Fígaro’ nos traz para o presente. «Os clássicos têm uma coisa: adaptam-se ao tempo. Quase não é preciso fazermos nada. Os textos são clássicos por causa disso», lembra o António Pires. Para o encenador, são os actores e o público de hoje que lhes devolvem a actualidade.

©TRENDY Report | Casamento Figaro
©TRENDY Report

A escolha da tradução de Luís Miguel Cintra também foi feita pelo seu «equilíbrio entre comédia e crítica». António Pires destaca o humor na selecção das palavras e a riqueza da língua: «O que se ouve aqui é um texto erudito, embora seja comédia». Esta observação ajuda a perceber a exigência colocada aos actores: dar clareza e ritmo a uma linguagem que não precisa de ser simplificada (e, muitas vezes, não o é, de todo) para provocar o riso.

Mas a escolha também foi feita por uma razão política. Segundo o encenador, noutras traduções, algumas passagens, como o discurso de uma personagem feminina ou as intervenções dos empregados contra os patrões, apareciam «suavizadas». Na de Luís Miguel Cintra, acontece o contrário: «Aqui não, aqui está sublinhado».

António Pires escolhe, assim, uma versão em que a “graça” das palavras não apaga o incómodo daquilo que dizem. Susana e a Condessa (Sofia Marques) também impedem que o conflito se reduza a um duelo entre dois homens: ambas têm razões próprias para contrariar o Conde e conspiram para resistirem à sua vontade.

©TRENDY Report | Casamento Figaro
©TRENDY Report

A fidelidade à tradução não significa, contudo, que o texto seja apresentado sem alterações. Houve cortes e personagens reunidas, numa decisão que trouxe para dentro do espectáculo outra realidade contemporânea: o financiamento do teatro. «Uma adaptação para o número de actores que podia ter na peça», explica António Pires. Por exemplo, Fininha (uma criada, interpretada por Carolina Campanela) passou a concentrar várias personagens e desapareceram algumas cenas que «exigiam mais gente em palco».

Estreada em Paris em 1784, cinco anos antes da Revolução Francesa, a peça expõe os privilégios de uma aristocracia que toma a obediência dos outros como um dado adquirido. António Pires considera-a um dos textos «precursores da Revolução Francesa» e lê nela uma revolta dos trabalhadores, representados pelos criados da casa, contra o abuso de poder. A ridicularização do Conde é uma das formas de lhe retirar autoridade.

É também aqui que a questão da actualidade merece ficar em aberto. Rir de Almaviva permite-nos reconhecer os seus abusos, mas não resolve a desigualdade que os torna possíveis. Fígaro, Susana e a Condessa têm de recorrer ao engenho e à conspiração para contrariar uma vontade que o Conde julga suficiente para mandar. A distância histórica existe, mas, provavelmente, o público vai sair do Teatro do Bairro com o desconforto de reconhecer que esta lógica continua viva na sociedade actual, sob várias formas.

©TRENDY Report | Casamento Figaro
©TRENDY Report

‘O Casamento de Fígaro’ estreia esta Sexta-Feira, com uma sessão às 21 horas, e fica em cena até 6 de Novembro. Sábados e Domingos, há matiné às 17. Durante a semana, há mais dois dias com sessões: Quarta e Quinta, sempre às 21. Os bilhetes custam entre oito e quinze euros.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].