Três anos e oito meses depois, Pedro Penim reabre a Sala Garrett com um espectáculo protagonizado por José Raposo, Bárbara Branco e… muita tecnologia.
A fachada do D. Maria II está dentro do D. Maria II. No palco, o edifício transforma-se num cenário da sua própria reabertura e dos crimes de Macbeth, numa imagem que aproxima a história do teatro da tragédia de Shakespeare. Há figurinos vistosos, música, luz, fogo; e há um rei que reconhece a lógica da violência que desencadeou, mas continua preso nela. «O sangue pede mais sangue e o sangue há-de chamar mais sangue», diz Macbeth, antes de se descrever atolado num «pântano de sangue» do qual não consegue sair.
O D. Maria II reabre a 18 de Setembro, com ‘Macbeth’, numa encenação e tradução de Pedro Penim. Esta escolha tem, como já era sabido, uma ligação directa à memória desta “casa”. Era esta a peça que estava em cartaz quando o incêndio de 2 de Dezembro de 1964 destruiu grande parte do teatro. Agora, depois de um prolongado encerramento para obras de requalificação, é a mesma história que recebe o público na renovada Sala Garrett.
«Acaba por ser uma provocação reabrir com uma peça maldita», admite Pedro Penim, em conversa com os jornalistas depois do ensaio de imprensa. O encenador lembra que esta peça se tornou uma «espécie de tabu» no D. Maria II, mas que o regresso a cena permite também assinalar os 180 anos do Teatro Nacional, num programa que inclui uma exposição sobre a história do teatro e outras iniciativas ao longo do ano.

A verdade é que a reputação de ‘Macbeth’ atravessa várias gerações de actores, ligada a uma superstição: dizer o título dentro de um teatro dá azar, razão pela qual há quem lhe chame apenas a «peça escocesa». Ao longo do tempo, a narrativa reuniu acidentes reais, incluindo histórias de mortes nas primeiras representações. A própria Royal Shakespeare Company apresenta como folclore a alegação de que o dramaturgo usou encantamentos verdadeiros e despertou a ira de bruxas. Contudo, não há uma sequência inevitável de teatros em chamas sempre que a peça sobe ao palco.
Mas, no Rossio, a memória do incêndio está em palco, fruto de uma provocação adicional por parte do encenador: «O fogo existe, é real». Pedro Penim explica que há controlo rigoroso e bombeiros a postos para garantir a segurança, embora reconheça o efeito psicológico que a presença das chamas possa ter no público que conhece a história do edifício. Esta é apenas uma peça do puzzle de uma encenação que tem uma forte presença visual.
Os figurinos, a luz e os efeitos cénicos fazem parte da construção das personagens e do ambiente. A música e o som sublinham monólogos e diálogos, pontuam a tensão e acompanham as mudanças de tom; a luz, irrepreensível, torna perceptíveis estados de espírito e destaca os momentos mais introspectivos. A fachada do teatro enquadra esta sucessão de imagens e serve também de palácio onde decorre a intriga (e o crime).

É perfeitamente notório que Pedro Penim quis aproveitar as possibilidades técnicas do edifício renovado. «Temos um Rolls-Royce em mãos», compara, a propósito da maquinaria de cena, do som e da recuperação do palco rotativo. Mostrar o que mudou durante o encerramento faz parte da proposta, explica o encenador e director artístico do D. Maria II.
O contexto de ‘Macbeth’ já era político quando Shakespeare escreveu a peça, no início do séc. XVII: Jaime I ocupava o trono inglês e a Conspiração da Pólvora, de 1605, tinha tornado o regicídio e a traição assuntos na “agenda mediática”. A tragédia dialoga com esse ambiente, mas as suas personagens continuam a permitir leituras que ultrapassam as circunstâncias em que a obra foi escrita.
Para Pedro Penim, uma das ligações ao presente está na exposição desavergonhada da crueldade: «De repente, o mal deixou de ter pudor em se mostrar». Ao encenador, interessa também a capacidade que esse mal tem de «atrair» o público, dado que a peça recorre a uma linguagem de «grande beleza poética», acrescenta José Raposo, numa entrevista paralela, para imaginar e dar forma ao crime.

Precisamente, a escolha de José Raposo foi feita para ser o ponto central neste “jogo de sedução” entre o espectador e o mal. Pedro Penim quis colocar um actor «muito querido do público» no papel de um dos «grandes vilões da dramaturgia», para explorar a «facilidade com que nos podemos deixar conquistar por ele». Ao seu lado, Bárbara Branco traz a Lady Macbeth uma energia que o encenador associa à «diferença de gerações entre os intérpretes». O objectivo foi dar força à «influência da personagem» sobre o marido e contrariar a tendência para a secundarizar, por ter «menos tempo em cena».
A mesma vontade de desafiar expectativas está personificada em Hugo Van Der Ding, que assume o papel de Banquo, o companheiro de armas de Macbeth que o próprio manda assassinar. Pedro Penim, que trabalha com ele «desde 2014», quis explorar a sua dimensão dramática perante um público que o associa, sobretudo, à comédia: «Queria dar-lhe esse desafio de vê-lo em cena e de não ter graça. Correu muito bem».
A ligação à produção dos anos sessenta esteve perto de passar, também, pelas palavras. Penim começou por considerar a tradução de Manuel Bandeira usada nessa versão, mas não conseguiu «chegar a acordo com os representantes do poeta». Assim, a solução acabou por ser assumir a tarefa, o que lhe exigiu «mais tempo e trabalho que esperava». O resultado final, garante, mantém a preocupação com o verso e a complexidade poética, mas evita palavras que tornem a escuta inacessível ao espectador português de hoje. «É uma tradução para ser representada», sublinha.

Apesar de procurar a «maior fidelidade possível» ao texto original, Penim não quis reconstituir uma época ,nem «acrescentar» algo à história de Shakespeare: as escolhas dos actores, dos figurinos (ainda que com várias liberdades estilísticas, como calças de ganga), da música e da cenografia já situam a produção no seu tempo. «Não acho que falte dizer nada. O texto vai-se renovando a cada geração», lembra Pedro Penim.
O encenador deixa, contudo, espaço ao público para estabelecer as suas próprias relações com a peça. Mas, durante a tradução, encontrou uma ideia que passou a orientar a sua leitura: «Antes de agir, Macbeth imagina». É neste exercício que o crime ganha forma e se torna possível. Quando se sugere que a palavra mais habitual para descrever a personagem é «ambição», a resposta é curta: «Prefiro ‘imaginação’».
‘Macbeth’fica em cena até 31 de Outubro e conta com a interpretação de Ana Coimbra, Ana Tang, Bárbara Branco, Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding, João Grosso, José Neves, José Raposo, June João, Sandro Feliciano, Stela e Vítor Silva Costa. A cenografia é de Joana Sousa, os figurinos são da responsabilidade de Joana Duarte; a composição e o desenho de som são de Filipe Baptista e, a luz, de Daniel Worm d’Assumpção. Os bilhetes começam nos dez euros.
















