O texto de August Strindberg transforma uma disputa sobre o futuro de uma filha numa luta pelo poder dentro de casa.
«Esta casa está cheia de mulheres que querem educar a minha filha; cada uma quer uma coisa. Eu queria ter voz e estou metido numa jaula de tigres». O capitão Adolfo, interpretado por Gonçalo Waddington, não espera pelo final da história para concluir uma realidade óbvia: poucos minutos depois de a cortina subir, já sabemos como vai ser a vida do protagonista ao longo dos noventa minutos que dura ‘O Pai’.
Adolfo é o homem da casa, o militar, o que gere o dinheiro da família e a quem a sociedade de 1887 entregava formalmente a autoridade. O problema é que, dentro destas quatro paredes, quase ninguém parece disposto a reconhecer-lha. É a partir desta contradição que ‘O Pai’, do sueco August Strindberg, ganha força, agora encenado por Gonçalo Waddington, que assume também o papel principal, ao lado de Carla Maciel (a sua mulher, Laura).
O desacordo inicial é sobre o futuro de Berta, a filha do casal (Cecília Borges – foto em baixo). Ele decidiu que a jovem deve sair de casa dentro de quinze dias; Laura quer que fique. Mas a discussão rapidamente deixa de ser apenas sobre educação para se transformar numa luta entre duas pessoas que conhecem suficientemente bem as fragilidades uma da outra para saber onde atacar.

«A Laura não quer que a Berta se vá embora e eu não quero que ela fique nesta casa de loucos», dispara o Capitão, antes de garantir que «não tolera» que «ninguém, seja mulher ou criança» se atravesse no seu caminho. A dureza destas palavras convive, contudo, com uma incapacidade crescente para transformar autoridade em controlo. É precisamente aqui que Gonçalo Waddington encontra a personagem.
«Quando digo que [o Capitão] é um mau casting para exercer autoridade, é no sentido de que vive numa sociedade em que ele é o homem, é ele que recebe o dinheiro, é militar, tem uma posição e tem de exercer autoridade», explica o também encenador. No quartel, esta hierarquia funciona, porque está «institucionalizada», mas, com a família, em casa, é diferente: «Ele acha que tem de exercer autoridade completamente, mas está sempre a ser ludibriado por todas as mulheres».
Ao longo da peça, vamos percebendo que há mesmo qualquer coisa de deslocado naquele homem que deveria mandar. Gonçalo Waddington vê-o como «uma espécie de capitão com alma de artista ou de cientista», alguém que só “respira” verdadeiramente no seu mundo quando está calado, entregue aos livros e à ciência. «Não tem jeito para aquilo», resume o actor. A decisão de mandar a filha para fora de casa acaba por ser mais uma demonstração de força que uma tentativa de vencer uma batalha que parece estar perdida antes de ser travada.

A partir daí, o relógio começa a contar. O Capitão sabe que tem quinze dias para fazer isso e Laura tem exactamente o mesmo tempo para contrariar o marido – «ou para fazer o que for possível para o contrariar», missão onde conta com a ajuda do novo médico da família (João Pedro Vaz – foto em cima) O que começa como uma disputa pelo futuro de Berta vai perdendo a filha como centro aparente da peça. «A partir de uma certa altura, deixa de ser sobre isso», assume Gonçalo Waddington, e passa a ser sobre os dois.
É aqui que Laura se torna particularmente interessante. Seria fácil transformar ‘O Pai’ na história de um homem destruído por uma mulher manipuladora, mas o encenador recusa esta leitura mais linear. Laura combate alguém que tem praticamente todas as regras sociais do seu lado: «Aquilo de que gosto mais na peça é que a mulher reclama para si uma coisa porque não tem as mesmas armas que ele», explica. «Não tem o dinheiro, porque o dinheiro pertence ao marido; não tem trabalho, não tem uma carreira, não vota.» Sobra-lhe outro tipo de poder. «Tem o direito de ser tão filha da mãe como ele, porque os homens podem ser filhos da mãe. Ela, no fundo, é a forte e ele é o fraco».
Quanto mais o Capitão reclama autoridade, mais evidente se torna a dificuldade em exercê-la. «Porque é que todas as mulheres tratam os homens como se fossem meninos?», pergunta a certa altura. A frase pode soar a um protesto contra as mulheres que o rodeiam, mas também denuncia, precisamente, aquilo que ele tenta esconder: a distância entre a imagem de homem que a sociedade espera dele e aquilo que realmente consegue ser.

Gonçalo Waddington não tentou resolver esta tensão através de uma actualização ostensiva da peça. O cenário afasta-se do naturalismo histórico, mas não existe uma tentativa de mascarar ‘O Pai’ com a capa de uma abordagem contemporânea. Aliás, o encenador admite que lhe dá «alguma comichão» ouvir repetidamente que um determinado clássico é muito actual: «Para mim, o actual é precisamente confrontarmos o público com um texto de 1887 e isto reverberar ainda hoje, porque somos nós a fazê-lo e são as pessoas de hoje a vê-lo, com os nossos preconceitos e a nossa forma de ver o mundo».
Nem sequer a misoginia frequentemente associada a Strindberg parece passível de uma leitura «sem contradições». Gonçalo Waddington lembra que o dramaturgo escreveu afirmações «profundamente misóginas», mas também «defendeu os direitos das mulheres, desde o voto à possibilidade de terem uma carreira».
Encenações à parte, a relação em palco entre Gonçalo Waddington e Carla Maciel (marido e mulher na vida real) nesta peça pode ser entendida como uma espécie de sequela, ainda que metafórica: recentemente, vimo-los em ‘Veneno’, de Lot Vekemans, como um ex-casal obrigado a confrontar a morte do filho. Desta vez, o conflito gira em torno de uma filha viva e do futuro que cada um quer escolher por ela. «’O Pai’ estava decidido há vários anos, antes de ambos terem sido convidados para ‘Veneno’», esclarece Gonçalo Waddington.

Para os dois, contracenar está longe de ser um problema: «Gostamos muito de trabalhar um com o outro. Às vezes estamos às turras e discutimos, mas é sempre giro». Talvez seja justamente esta proximidade que torna mais desconfortável assistir ao confronto entre o Capitão e Laura. Não há aqui um herói evidente nem um vilão “confortável”. Há um homem que tem a autoridade e não sabe o que fazer com ela; e uma mulher a quem essa autoridade foi recusada e que encontra outras armas para a disputar.
‘O Pai’ estreia esta Quarta-Feira, 16 de Setembro, na sala principal do São Luiz, e fica em cena até 27 de Setembro, sempre às 20 horas (excepto aos Domingos, numa matiné às 17:30). A duração é de noventa minutos, com os bilhetes a custarem entre doze e quinze euros; nos dias 25 e 27, há sessões com audiodescrição. Depois, segue para o Teatro Nacional de São João (Porto), onde fica entre 8 e 18 de Outubro.
















