‘O Pai’ estreia no São Luiz: Gonçalo Waddington e Carla Maciel entram numa guerra em que só a autoridade não chega para mandar em casa (e na família)

Esta peça com quase 140 anos prova que ter o poder é diferente de o saber exercer.

©TRENDY Report | O Pai
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O texto de August Strindberg transforma uma disputa sobre o futuro de uma filha numa luta pelo poder dentro de casa.

«Esta casa está cheia de mulheres que querem educar a minha filha; cada uma quer uma coisa. Eu queria ter voz e estou metido numa jaula de tigres». O capitão Adolfo, interpretado por Gonçalo Waddington, não espera pelo final da história para concluir uma realidade óbvia: poucos minutos depois de a cortina subir, já sabemos como vai ser a vida do protagonista ao longo dos noventa minutos que dura ‘O Pai’.

Adolfo é o homem da casa, o militar, o que gere o dinheiro da família e a quem a sociedade de 1887 entregava formalmente a autoridade. O problema é que, dentro destas quatro paredes, quase ninguém parece disposto a reconhecer-lha. É a partir desta contradição que ‘O Pai’, do sueco August Strindberg, ganha força, agora encenado por Gonçalo Waddington, que assume também o papel principal, ao lado de Carla Maciel (a sua mulher, Laura).

O desacordo inicial é sobre o futuro de Berta, a filha do casal (Cecília Borges – foto em baixo). Ele decidiu que a jovem deve sair de casa dentro de quinze dias; Laura quer que fique. Mas a discussão rapidamente deixa de ser apenas sobre educação para se transformar numa luta entre duas pessoas que conhecem suficientemente bem as fragilidades uma da outra para saber onde atacar.

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«A Laura não quer que a Berta se vá embora e eu não quero que ela fique nesta casa de loucos», dispara o Capitão, antes de garantir que «não tolera» que «ninguém, seja mulher ou criança» se atravesse no seu caminho. A dureza destas palavras convive, contudo, com uma incapacidade crescente para transformar autoridade em controlo. É precisamente aqui que Gonçalo Waddington encontra a personagem.

«Quando digo que [o Capitão] é um mau casting para exercer autoridade, é no sentido de que vive numa sociedade em que ele é o homem, é ele que recebe o dinheiro, é militar, tem uma posição e tem de exercer autoridade», explica o também encenador. No quartel, esta hierarquia funciona, porque está «institucionalizada», mas, com a família, em casa, é diferente: «Ele acha que tem de exercer autoridade completamente, mas está sempre a ser ludibriado por todas as mulheres».

Ao longo da peça, vamos percebendo que há mesmo qualquer coisa de deslocado naquele homem que deveria mandar. Gonçalo Waddington vê-o como «uma espécie de capitão com alma de artista ou de cientista», alguém que só “respira” verdadeiramente no seu mundo quando está calado, entregue aos livros e à ciência. «Não tem jeito para aquilo», resume o actor. A decisão de mandar a filha para fora de casa acaba por ser mais uma demonstração de força que uma tentativa de vencer uma batalha que parece estar perdida antes de ser travada.

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A partir daí, o relógio começa a contar. O Capitão sabe que tem quinze dias para fazer isso e Laura tem exactamente o mesmo tempo para contrariar o marido – «ou para fazer o que for possível para o contrariar», missão onde conta com a ajuda do novo médico da família (João Pedro Vaz – foto em cima) O que começa como uma disputa pelo futuro de Berta vai perdendo a filha como centro aparente da peça. «A partir de uma certa altura, deixa de ser sobre isso», assume Gonçalo Waddington, e passa a ser sobre os dois.

É aqui que Laura se torna particularmente interessante. Seria fácil transformar ‘O Pai’ na história de um homem destruído por uma mulher manipuladora, mas o encenador recusa esta leitura mais linear. Laura combate alguém que tem praticamente todas as regras sociais do seu lado: «Aquilo de que gosto mais na peça é que a mulher reclama para si uma coisa porque não tem as mesmas armas que ele», explica. «Não tem o dinheiro, porque o dinheiro pertence ao marido; não tem trabalho, não tem uma carreira, não vota.» Sobra-lhe outro tipo de poder. «Tem o direito de ser tão filha da mãe como ele, porque os homens podem ser filhos da mãe. Ela, no fundo, é a forte e ele é o fraco».

Quanto mais o Capitão reclama autoridade, mais evidente se torna a dificuldade em exercê-la. «Porque é que todas as mulheres tratam os homens como se fossem meninos?», pergunta a certa altura. A frase pode soar a um protesto contra as mulheres que o rodeiam, mas também denuncia, precisamente, aquilo que ele tenta esconder: a distância entre a imagem de homem que a sociedade espera dele e aquilo que realmente consegue ser.

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Gonçalo Waddington não tentou resolver esta tensão através de uma actualização ostensiva da peça. O cenário afasta-se do naturalismo histórico, mas não existe uma tentativa de mascarar ‘O Pai’ com a capa de uma abordagem contemporânea. Aliás, o encenador admite que lhe dá «alguma comichão» ouvir repetidamente que um determinado clássico é muito actual: «Para mim, o actual é precisamente confrontarmos o público com um texto de 1887 e isto reverberar ainda hoje, porque somos nós a fazê-lo e são as pessoas de hoje a vê-lo, com os nossos preconceitos e a nossa forma de ver o mundo».

Nem sequer a misoginia frequentemente associada a Strindberg parece passível de uma leitura «sem contradições». Gonçalo Waddington lembra que o dramaturgo escreveu afirmações «profundamente misóginas», mas também «defendeu os direitos das mulheres, desde o voto à possibilidade de terem uma carreira».

Encenações à parte, a relação em palco entre Gonçalo Waddington e Carla Maciel (marido e mulher na vida real) nesta peça pode ser entendida como uma espécie de sequela, ainda que metafórica: recentemente, vimo-los em ‘Veneno’, de Lot Vekemans, como um ex-casal obrigado a confrontar a morte do filho. Desta vez, o conflito gira em torno de uma filha viva e do futuro que cada um quer escolher por ela. «’O Pai’ estava decidido há vários anos, antes de ambos terem sido convidados para ‘Veneno’», esclarece Gonçalo Waddington.

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Para os dois, contracenar está longe de ser um problema: «Gostamos muito de trabalhar um com o outro. Às vezes estamos às turras e discutimos, mas é sempre giro». Talvez seja justamente esta proximidade que torna mais desconfortável assistir ao confronto entre o Capitão e Laura. Não há aqui um herói evidente nem um vilão “confortável”. Há um homem que tem a autoridade e não sabe o que fazer com ela; e uma mulher a quem essa autoridade foi recusada e que encontra outras armas para a disputar.

‘O Pai’ estreia esta Quarta-Feira, 16 de Setembro, na sala principal do São Luiz, e fica em cena até 27 de Setembro, sempre às 20 horas (excepto aos Domingos, numa matiné às 17:30). A duração é de noventa minutos, com os bilhetes a custarem entre doze e quinze euros; nos dias 25 e 27, há sessões com audiodescrição. Depois, segue para o Teatro Nacional de São João (Porto), onde fica entre 8 e 18 de Outubro.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].