A MG foi a surpresa da lista dos automóveis mais vendidos em Janeiro e o S5 até pode ajudar a perceber o feito. Mas há falhas que não deviam estragar o conjunto de pontos positivos deste SUV.
Ok, o S5 não foi o modelo mais vendido da marca em Janeiro: a MG entrou no Top 10 muito por culpa do ZS, outro SUV da MG que completa o trio composto por este modelo que conduzimos e o HS PHEV (pode ler aqui o teste). Quando dizemos que pode ajudar a explicar, tem que ver com o potencial da oferta da marca, que também tem no S5 um bom intérprete, apesar de não ser um automóvel isento de falhas.
Mas, antes de chegar à “fava” que este modelo nos fez “trincar”, vamos aos “brindes” – e os primeiros estão cá fora. O S5 tem um aspecto mais limpo e actual que o HS, com ópticas rasgadas à frente que lhe dão um ar futurista; atrás, temos uma assinatura luminosa que faz lembrar a do MG4, que consideramos ser o melhor modelo da marca.
Não somos grandes adeptos de automóveis brancos, mas temos de dar a mão à palmatória: o S5 fica bastante bem em Dover White. Para completar este que é o look mais arrojado dos SUV MG, temos as jantes de liga leve estilo rotor de dezoito polegadas. Só dispensávamos uma coisa: os cromados nas janelas.

Na base do MGS5 estão a bateria de 64 kWh (níquel cobalto manganês), um motor com 170 kW, binário de 350 Nm e prestações aceitáveis para um modelo deste género: os 0 aos 100 cumprem-se em pouco mais de seis segundos e a velocidade máxima é de 190 km/h.
A autonomia WLTP anunciada pela MG aponta para 465 km, com os consumos oficiais a bater nos 16 kWh/100 km; no nosso registo, com 226,8 km percorridos em autoestrada e cidade, conseguimos bater, ainda que por décimas, o anunciado pela marca: 15,9 kWh/100 km, mesmo com bastante tempo em modo ‘Sport’. Gostamos sempre quando o que a marca diz se reflecte na condução diária e gostamos ainda mais quando conseguimos bater esses números.
Em condução, este S5 pareceu-nos mais ágil que o HS: é um bom SUV para a cidade (4,476 metros de comprimento e 1,849 metros de largura), estaciona-se bem em lugares mais apertados e é uma verdadeira flecha em autoestrada. Como é habitual nos EV, a presença do modo One Pedal Drive, aqui chamado ‘Um Pedal’, é uma realidade.

Contudo, esta é uma opção separada dos três níveis de regeneração disponíveis, o que faz com que o nível mais elevado seja mais suave do que o one pedal, o que dá uma condução menos agressiva, mas também menos “travada” quando se levanta o pé. O melhor será mesmo optar por um nível intermédio.
No interior, o MGS5 EV aposta num ambiente dominado por pele, fibra de carbono e plásticos, com um aplique de Alcantara na consola central. Aqui estão apenas o selector de marcha rotativo e o travão electrónico; já a organização do espaço é bem pensada: temos uma base Qi para carregar o smartphone, dois suportes para garrafas, um espaço à medida da chave e um compartimento generoso sob o apoio de braços.
Dentro deste ficam duas portas USB-C, com mais uma atrás para os passageiros; por baixo, existe ainda uma área em “ponte”, mas de acesso difícil — continuamos sem perceber a fixação de algumas marcas por este formato. A versão Luxury vem, ainda, com bancos dianteiros aquecidos, em estilo pele cinza bicolor com inserções em tecido, bastante confortáveis.

Aqui temos ainda um volante aquecido, mas que não mantém a temperatura de forma consistente, o que levou a uma experiência muito irregular. Atrás, levar três adultos não nos parece ser o ideal: tivemos queixas de falta de conforto (é o preço a pagar pelo formato mais compacto), mas o essencial está garantido no espaço de carga e na clássica lógica familiar ‘2 + 2’, até porque há um apoio de braços reclinável.
Costuma-se dizer que o melhor fica para o fim, mas neste caso invertemos a lógica: chegou a altura de falarmos na “fava” do MGS5, o sistema de infoentretenimento, personificado num, até bom, ecrã HD de 12,8 polegadas. É certo que temos Apple CarPlay e Android Auto sem fios e, para quem não quiser ligar o smartphone, Spotify, YouTube e Amazon Prime.
O problema é que o sistema da MG tem vários erros de tradução/português que já tínhamos visto no HS e que esperávamos que já tivessem sido corrigidos num modelo mais recente e que foi anunciado como a “jóia da coroa” da MG: ‘frenagem’ (travagem), ‘modo trailer’ (quando devia ser ‘modo atrelado’), ‘feixe principal’ (‘máximos’), ‘limpador’ (em vez de limpa-pára-brisas) e até um menu de ‘definições’ traduzido como… ‘a definir’.

Soma-se a isto a interacção com uma lentidão evidente, sensibilidade ao toque que falha e arrastamento pouco fluido no scroll e no deslize horizontal. Há ainda instruções pouco claras, como um ‘Modo’, na parte da ‘Condução’, com opções ‘Normal’ e ‘Passo Profundo’, que não conseguimos descodificar.
Este sistema pede urgentemente uma actualização para ficar mais amigo do condutor e, quanto mais não seja, com instruções correctas em bom português: é frustrante ver um automóvel que teve um bom desempenho tratado com este descuido. Ainda assim, e como nem tudo deve ser digital, a MG manteve, e bem, por baixo do ecrã, um conjunto de botões físicos úteis para regular o ar e o volume, além de um botão para regressar de imediato ao ecrã principal.
No caso do painel de instrumentos, tivemos mixed feelings. Este display mostra informação clara, mas a qualidade não é HD e as laterais ficam reduzidas a dois painéis monocromáticos com informação fixa: autonomia à esquerda e a relação entre potência e travagem regenerativa à direita.

O tipo de letra faz lembrar os Casio digitais dos anos oitenta, mas sem aquele apelo nostálgico, pois mais nada do S5 nos dá essa vibe; assim, o que sentimos é um look deslocado do resto da plataforma digital, o que lhe dá um ar datado. Aqui há outra limitação: não podemos mudar o aspecto como no HS, apenas alternar a informação cíclica entre multimédia, consumos, navegação e pressão dos pneus.
No volante, os botões são iguais aos do HS, com comandos principais em joysticks e três botões de cada lado, incluindo os atalhos em forma de estrela para funções que podemos definir; ainda assim, faz falta um atalho directo para o ‘Piloto MG Personalizado’, para evitar o ritual de desligar alertas ADAS que são demasiado sensíveis e, francamente, irritantes.
No final de contas, o MGS5 tem muito do que interessa pôr em primeiro lugar na compra de um SUV: prestações, autonomia, carregamento rápido, grande bagageira e consumos aceitáveis. Ou seja, um bom conjunto de brindes; mas a “fava” que este automóvel nos dá acaba por estragar muito a experiência a bordo. A MG tem urgentemente de afinar o sistema de infoentretenimento para que o S5 fique ao nível do verdadeiro potencial deste EV que, em Portugal, custa 36 689 euros.


















