Renovada pela mão de Francisco Breyner, a histórica Churrasqueira do Campo Grande recupera os sabores tradicionais portugueses, num espaço mais acolhedor, onde a autenticidade é o grande argumento.
Quando destapámos o tacho que trazia o Arroz de Bacalhau, percebemos logo que estávamos num restaurante que pode muito bem ser o novo “porto seguro” da gastronomia tradicional portuguesa em Lisboa.
Bastou sentir o aroma do refogado, misturado com o tomate e a salsa, para regressarmos aos antigos almoços de Domingo, em família. Isto é precisamente aquilo a que gostamos de chamar ‘cozinha de memória’, feita de sabores que reconhecemos, que nos confortam e que associamos a momentos felizes.
Fundada em 1962, a Churrasqueira do Campo Grande foi uma referência da restauração tradicional lisboeta, mas a sua história recente esteve longe deste estatuto. Em 2016, o restaurante foi vendido ao grupo Chimarrão e, em 2024, acabou por fechar na sequência da burla que atingiu esta marca.

Pouco tempo depois, Francisco Breyner, empresário ligado à restauração e responsável pelos Sr. Lisboa e o Chico Esperto, decidiu avançar, com amigos, com uma proposta para recuperar o restaurante. O objectivo era devolver-lhe o nome original e, sobretudo, a identidade que o tinha tornado conhecido: uma cozinha tradicional portuguesa, com o frango assado a ser o principal protagonista.
«Não quisemos revolucionar nada, não viemos inventar a roda», explica Francisco Breyner, ao TRENDY Report, durante um jantar no novo espaço. Este, acaba por ser o mote que resume a filosofia da nova etapa: «Apresentar o simples bem feito, de raiz». A intenção passa, assim, por «recuperar os sabores de sempre, com apresentações mais cuidadas, mas sem modernices desnecessárias».
Mas também há uma dimensão afectiva neste regresso: «Existe sempre alguma saudade», reconhece o empresário, que recorda as histórias de quem ali almoçava com os avós: «Era isto que queríamos recuperar, refeições tranquilas em que não vamos à procura de uma experiência. É para almoçar em família tranquilamente».

A transformação é visível logo à entrada. O espaço tem uma atmosfera mais contemporânea, onde a madeira assume um papel importante na decoração; os materiais transmitem conforto e a iluminação quente ajuda a criar um ambiente acolhedor. É um restaurante onde apetece sentar, conversar e prolongar a refeição, sem pressas.
Neste jantar, arrancámos com dois clássicos que, apesar de aparentemente simples, dizem muito sobre a qualidade de uma cozinha: Croquetes de Carne (1,95 euros, cada) e Peixinhos da Horta. Os primeiros, com a carne bem cozinhada, particularmente saborosa, uma textura agradável e uma fritura bem conseguida; os segundos, finos e pequenos, pouco maiores que um dedo, com uma cobertura fina e muito crocante, sem excesso de polme. Resumindo: duas entradas despretensiosas e bem executadas.
Com os pratos que se seguiram, a cozinha da Churrasqueira do Campo Grande prova que domina os fundamentos da gastronomia portuguesa. Os Filetes de Corvina com Arroz de Tomate à Antiga (17,50 euros) chegaram com uma fritura cuidada, bem secos de óleo, com um peixe suave e um arroz a cumprir o papel de acompanhamento clássico, daqueles que dispensam (mesmo) qualquer tentativa de reinvenção.

Mas foi o Arroz de Bacalhau (foto em cima) que nos deu o momento mais evocativo da noite. O “perfume” do refogado, a presença da salsa e do tomate, o peixe bem lascado e a textura do arroz compuseram um prato profundamente familiar. Talvez pedisse um pouco mais de sal ou de intensidade no tempero, mas não retirou o prazer de encontrar uma preparação próxima da cozinha caseira.
Naturalmente, uma visita à Churrasqueira do Campo Grande não podia ficar completa sem provar o seu prato mais emblemático: o Frango no Churrasco com Molho da Casa, disponível em meia dose (10,80 euros) ou inteiro (21 euros), que chegou à mesa com um aspecto convidativo, onde o molho e os pickles obrigam a ter pão por perto.
A carne estava bem tenra e suculenta, mesmo nas zonas que habitualmente são mais secas, leia-se, o peito; aqui, não sentimos nada disto, nem aquela sensação de que o tempero se fica apenas pele. Pelo contrário, cada pedaço tinha o sabor tradicional que esperamos de um bom frango assado.

Como acompanhamento, batatas fritas finas caseiras, de paliuto, longe das soluções congeladas, das de pacote (ou às rodelas) que tantas vezes aparecem como acompanhamento. Mais uma vez, a diferença está num pormenor que ajuda a distinguir uma refeição verdadeiramente cuidada de uma que serve apenas para “cumprir calendário”. Aqui, temos um frango tão bem conseguido que quase apetece pedir um inteiro só para nós. E, talvez, não haja um elogio melhor para uma casa que tem a palavra ‘churrasqueira’ no nome.
O jantar terminou com três sobremesas que mantêm a ligação à doçaria tradicional portuguesa: Leite Creme Tradicional Queimado, Farófias com Creme de Ovos e Pudim de Azeite (entre 4 e 5 euros). As duas primeiras têm um equilíbrio agradável, sem excesso de açúcar; já a última mostrou-se mais indulgente, ideal para quem prefere terminar a refeição com uma nota gulosa.
Saímos da Churrasqueira do Campo Grande genuinamente impressionados, não por termos encontrado uma cozinha revolucionária ou particularmente ousada, mas precisamente pelo contrário. Há aqui uma confiança na tradição, no produto e na execução que dispensa artifícios. A renovação da Churrasqueira do Campo Grande trouxe mais conforto e deu uma nova vida a um espaço “esquecido”. Mas o que realmente justifica a visita vem da acontecer na cozinha.

















