Quase três horas de humor obsceno, imagens geradas por IA e histórias que desafiam as convenções do terror. Ver este ‘Dracula’ é uma experiência delirante, excessiva e um bom teste à nossa paciência.
O primeiro aviso é dito por um Drácula gerado por IA: uma ordem sexual grosseira, repetida por figuras saídas de uma espécie de fábrica de pesadelos com problemas de controlo de qualidade. Assim, quem estava à espera de castelos envoltos em nevoeiro e um conde atormentado pelo amor eterno, pode esquecer dar uma oportunidade ao novo filme de Radu Jude.
Aqui, o realizador dá-nos quase três horas de obscenidades e sátira sobre quem fabrica os monstros, quem ganha dinheiro com eles e quem é consumido pelo espectáculo. O arquitecto disto tudo é o cineasta Adonis Tanța (na foto, em baixo), que recorre à IA para desenvolver um filme comercial sobre Drácula, em que um dos fios condutores é um grupo de artistas de um espectáculo turístico cujos clientes podem perseguir os intérpretes com estacas.

Convém distinguir o conde Drácula de Bram Stoker, publicado em 1897, das tradições romenas que tantas vezes metemos debaixo da mesma “capa”. Aqui, não temos num aristocrata de cabelo impecável, nem essas crenças nasceram de Vlad, o Empalador – e esta é uma distância que interessa ao filme: a Roménia recebe turistas atraídos por uma fantasia internacional que não tem ligações com a tradição.
É aqui que entra Radu Jude: o realizador trabalha sobre esta identidade, transformada em mercadoria, num cenário onde a IA nos dá um toque de delírio: “absorve” os prompts de Adonis Tanța e devolve corpos deformados, erotismo grotesco e imitações instáveis. Numa entrevista ao Festival de Locarno, o realizador assumiu que quis mostrar imagens deliberadamente más e ligou a tecnologia ao gesto de se inspirar em tudo, sem autorização.
Num filme gravado com um iPhone (as limitações financeiras transformaram-se em estética), figurantes de cartão, iluminação exposta e efeitos rudimentares são o tempero desta narrativa. O resultado tem a liberdade de um cinema artesanal que prefere mostrar as costuras a esconder a falta de dinheiro.

O aparente disparate tem ainda parentescos com a tradição romena do absurdo. Jude cita Tristan Tzara e Eugène Ionesco entre as referências, ao lado de Ed Wood e de ‘O Decameron’, de Pasolini. Esta “convivência” entre erudição e mau gosto dá energia ao filme, mas não resolve tudo: há episódios que prolongam ideias já compreendidas e piadas que regressam sem ganhar força.

















