A peça de Constança Bourgard que ganhou o Prémio Rovisco Pais estreia esta Quinta-Feira e parte da compra de uma casa em Lisboa para falar de amor, género e das pequenas tensões que consomem uma relação.
Uma casa pode ser um ninho de amor, o lugar onde se constrói uma vida a dois, mas também pode ser um «acordo burocrático que transforma um casal em participantes no mercado imobiliário». É algures entre estas duas ideias que a porta do Trindade se abre para ‘Uma Casa, Com Certeza’.
O guião de Constança Bourgard, vencedor do Prémio Rovisco Pais, foi seleccionado para subir a palco e estreia a 10 de Setembro na Sala Estúdio do Teatro da Trindade, em Lisboa. A encenação é de Miguel Fragata (‘Fake‘, ‘A Caminhada dos Elefantes’); Ana Valentim (‘Whisky & Chips’, ‘Verão Danado’) e André Leitão (‘A Gaivota‘, ‘Rabo de Peixe‘) são os únicos actores em palco.
O ponto de partida não podia ser mais actual. Um jovem casal compra um T3 no centro de Lisboa, com vista para o Tejo. Há caixas para desempacotar, móveis para montar e uma vida em comum a despontar dentro daquelas quatro paredes (uma delas é a plateia da Sala Estúdio). Contudo, a concretização deste “sonho” começa rapidamente a expor divergências entre Ana e André (as personagens não têm nome): a casa avança e a relação recua.

É por isso que ‘Uma Casa, Com Certeza’ (preços de 11 a 15 euros) acaba por ser bastante mais uma peça sobre relações que sobre a crise da habitação. Este problema é importante, está sempre presente e determina muito do que separa as duas personagens, mas funciona sobretudo como catalisador de problemas que já existiam. Dinheiro, classe social, trabalho, expectativas, sexo, masculinidade, insegurança e reconhecimento começam a infiltrar-se nas conversas até não haver um assunto fuja a uma discussão – até um queijo.
As pequenas coisas tornam-se testes à saúde de uma relação que se revela cada vez mais competitiva; depois, o dinheiro introduz uma desigualdade impossível de ignorar. Ela ganha mais e foi quem conseguiu pagar a casa; ele cozinha, passa a ferro e assume parte importante do trabalho doméstico, mas queixa-se de que esse esforço «não é reconhecido» e de que as tarefas de casa lhe retiram o «tempo necessário para acabar a tese». Quando ela lhe pede que deixe de lhe recordar constantemente aquilo que faz, a resposta expõe a verdadeira dimensão do problema: «Sei que nunca te poderei compensar».
A inversão dos papéis tradicionais não elimina, portanto, os velhos conflitos – pelo contrário, permite à peça explorá-los de outro ângulo. O homem que reclama reconhecimento por fazer tarefas domésticas considera-se também um «namorado moderno», precisamente porque passa a ferro.

Ele tem um discurso mais preocupado com desigualdade e justiça social; ela está mais próxima de uma visão assente no mérito individual e parte de uma posição económica privilegiada. Mas ambos se contradizem. É possível concordar politicamente com um e, poucos minutos depois, reconhecer uma posição mais razoável no comportamento do outro.
Para os actores, essa ambiguidade é «uma das forças do texto», num tempo em que tantas discussões tendem a reduzir-se a posições de «preto ou branco», lembram Ana e André, que conversaram com os jornalistas depois do ensaio de imprensa, onde também esteve Miguel Fragata. O encenador vê, aqui, uma das dimensões que levam a peça «muito para lá do problema imobiliário».
A crise da habitação é o ponto de partida — com a ironia adicional de a peça ser apresentada no Chiado, que descreve como o «furacão da especulação imobiliária» de Lisboa —, mas o texto coloca frente a frente duas pessoas separadas por diferenças políticas, económicas e sociais, incluindo pontos de partida profundamente diferentes. Para o encenador, quem tenha uma relação duradoura «dificilmente deixará de reconhecer algumas das discussões» que acontecem em palco.

Em ‘Uma Casa, Com Certeza’ há uma simplicidade (que parte de uma inteligência cenográfica) que acaba por servir a sua própria metáfora: quanto mais completa fica a casa, mais desfeita está a relação. Miguel Fragata confirma que esta progressão foi «central» na encenação: os pequenos gatilhos acumulam-se, a tensão cresce e aquilo que deveria representar estabilidade transforma-se no espaço onde todos os conflitos se «tornam impossíveis de esconder».
A casa acaba, assim, por ser a «terceira personagem» desta peça. É nela que duas pessoas têm de “encaixar” não apenas os móveis e os electrodomésticos que trazem consigo, mas duas educações, duas origens sociais, duas ideias de conforto e duas formas de entender o mundo. Estas diferenças ajudam também a explicar uma pergunta que, para quem for ver, vai pairar sobre boa parte do espectáculo: o que mantém estas duas pessoas juntas?
Mas, talvez, o conflito mais difícil seja aquele que cada personagem mantém consigo própria. Ele defende determinadas ideias sobre igualdade até finalmente admitir que o sucesso económico da companheira, o facto de ser ela a comprar a casa e a sensação de estar rodeado pelas coisas dela o fazem sentir «menos homem». Ela esconde, sob sucessivos testes e metáforas, uma insegurança bastante mais elementar: saber se ele continua com ela porque realmente a ama.

Ana Valentim também teve de ultrapassar o julgamento inicial que fez da sua personagem. A actriz reconhece que começou por interpretá-la quase como uma «snob», tão «distante» está da «posição de privilégio» que representa. O processo obrigou-a a abandonar essa leitura fácil e a «encontrar as nuances» de alguém que pode ter vantagens económicas e uma visão do mundo discutível aos olhos de parte do público, mas que «também ama e não deve ser reduzida à classe social de onde vem».
Esta recusa em dar respostas simples talvez seja uma das qualidades mais interessantes de ‘Uma Casa, Com Certeza’. É fácil reconhecer comportamentos, discussões e pequenas mesquinhices do casal; mais difícil é, porém, decidir quem tem razão. E é este desconforto que os actores esperam poder transportar para fora do teatro: «Se houver espectadores que se revejam no que acabaram de ver e saiam da sala incomodados o suficiente para discutir a própria relação, melhor», assume André Leitão.
A proximidade entre público e actores, característica da Sala Estúdio (que só leva cinquenta pessoas), torna a tensão vivida em palco quase palpável: estamos praticamente dentro da casa (nunca a expressão ‘quarta parede’ fez tanto sentido), transformados em voyeurs. A conclusão não há-de fugir muito a isto: comprar uma casa em casal pode resolver o problema de ter onde viver, mas não garante que haja espaço para os dois.
















