Pat Metheny fechou em Lisboa uma digressão europeia com uma carreira inteira em movimento

Neste concerto, os temas antigos não foram tratados como peças de museu e os mais recentes não precisaram de negar o passado para encontrar lugar.

©TRENDY Report | Pat Metheny Lisboa
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No último concerto europeu de ‘Side-Eye III +’, o guitarrista percorreu cinco décadas de música sem transformar o Coliseu dos Recreios num exercício de nostalgia.

Lisboa recebeu o deradeiro concerto da digressão europeia de ‘Side-Eye III +’, iniciada a 2 de Julho em Itália, com o sinal de adição a não ser um mero um pormenor gráfico. Ao núcleo formado por Pat Metheny, o teclista Chris Fishman e o baterista Joe Dyson juntaram-se Jermaine Paul, no baixo, e Leonard Patton, na percussão e voz, numa formação capaz de alargar o vocabulário do projecto sem lhe retirar identidade.

No Coliseu, o concerto começou antes de a banda ocupar o palco. Os músicos surgiram pela retaguarda do Coliseu dos Recreios num cortejo percussivo, enquanto Pat Metheny, já diante do público, fazia soar a guitarra barítono. A entrada desfez de imediato a distância entre sala e palco e deu o tom para a noite: mais que apresentar uma sucessão de temas, o músico norte-americano queria pôr uma carreira inteira novamente em circulação.

A primeira parte avançou a partir do presente. ‘In On It’ manteve-se próxima da versão gravada em ‘Side-Eye III +’, antes de ‘Bright Size Life’, tema do álbum homónimo de 1976, abrir espaço para Jermaine Paul. O baixo deixou de funcionar apenas como sustentação harmónica e assumiu uma voz própria, num dos primeiros sinais de que Metheny não pretendia concentrar em si todas as atenções. ‘Don’t Look Down’ preservou a carga emotiva do registo discográfico e ‘Better Days Ahead’, originalmente gravada com pulsação de samba, apareceu transformada por uma leitura em trio, mais oblíqua e elástica.

Seguiu-se ‘Timeline’, de Michael Brecker, numa homenagem que substituiu a voz do saxofone por um diálogo entre órgão, bateria e guitarra. Fishman criou uma base harmónica densa, sobre a qual Metheny desenhou frases que evocaram o espírito da composição sem tentarem imitar o original. ‘Make a New World’ trouxe de novo o repertório mais recente, antes de ‘First Circle’, do álbum com o mesmo nome, fazer o Coliseu reconhecer logo nos primeiros compassos uma das geometrias rítmicas mais características do guitarrista.

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Foi a meio do concerto que Metheny se dirigiu ao público. «Tentei voltar durante os últimos dez anos e agora estamos aqui», disse, numa referência à longa ausência de Lisboa. Depois contou que deixara uma previsão aos restantes músicos antes do espectáculo: «Disse aos membros da banda que Lisboa ia ser a melhor audiência que teríamos ao longo desta digressão. E é verdade». A declaração recebeu a resposta previsível de uma sala que, até aí, escutara com atenção quase cerimonial e reagira com entusiasmo sempre que reconhecia os temas.

Metheny apresentou ainda Fishman e Dyson como o organista e o baterista entre os melhores com quem alguma vez tocou, e destacou Jermaine Paul e Leonard Patton como «músicos incríveis» que se juntaram nesta digressão. Este elogio não foi mero protocolo, dado que toda a “montagem” do concerto confirmou a confiança depositada no grupo: havia espaço para solos extensos, mudanças de formato e momentos em que o Pat saía deliberadamente do centro.

Esta liberdade tornou-se evidente em ‘Urban and Western’, onde Metheny recuperou ecos do seu Missouri natal através de uma progressão com ressonâncias gospel. Em ‘Red One’, a guitarra desapareceu e Jermaine Paul ocupou sozinho o espaço melódico. A ausência do guitarrista não criou, contudo, um intervalo; serviu, sim, para revelar a arquitectura colectiva de uma banda que podia alterar o seu centro de gravidade sem perder tensão.

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Um dos momentos mais delicados chegou com ‘Más Allá’, do álbum ‘First Circle’. Leonard Patton assumiu a parte vocal originalmente gravada por Pedro Aznar e cantou em espanhol com uma expressividade que evitou tanto a imitação como o excesso. Logo depois, ‘Phase Dance’ reduziu a escala do grande palco a uma conversa entre piano e guitarra. Após várias passagens densas, a economia de meios funcionou como uma pausa respiratória.

Joe Dyson voltou a aumentar a pulsação com um solo de bateria construído sobre o padrão Big Four de Nova Orleães. Não foi uma exibição desligada do alinhamento, mas uma passagem pela matriz rítmica do jazz norte-americano, feita de variações que nunca perderam o pulso original. Em ‘Round Trip/Broadway Blues’, a guitarra sem trastes e a distorção aproximaram Metheny do universo de Ornette Coleman; ‘Zenith Blue’, de ‘Side-Eye V1.IV’, levou depois a guitarra sintetizada para um território mais amplo, feito de camadas electrónicas e longas linhas melódicas.

Pode fazer, aqui, o download de uma análise interpretativa de cada tema da setlist deste concerto

A parte final começou a ganhar a forma de uma síntese. Sozinho com a guitarra barítono, Metheny ligou ‘America the Beautiful’, ‘The People United Will Never Be Defeated’ e ‘Last Train Home’. A sequência colocou lado a lado um tema patriótico norte-americano, a canção de Sergio Ortega associada à Unidade Popular chilena e uma das composições mais reconhecíveis do próprio guitarrista – foi uma montagem de memórias políticas, colectivas e pessoais.

Quando começaram as primeiras notas de ‘Are You Going With Me?’, de ‘Offramp’, a reacção da sala tornou claro que aquele era um dos momentos mais aguardados. O timbre da guitarra sintetizada, com o seu glissando imediatamente reconhecível, atravessou o Coliseu sem perder a estranheza que o tornou singular no início dos anos oitenta. A fidelidade ao tema não impediu a banda de lhe devolver tensão e movimento.

O grande medley final percorreu ‘Minuano (Six Eight)’, ‘As It Is’, ‘James’, ‘September Fifteenth’ e ‘This Is Not America’. Cinco temas de épocas e contextos diferentes foram ligados como partes da mesma linguagem, da influência brasileira à homenagem a Bill Evans, até à colaboração com David Bowie. Em vez de uma sucessão de excertos para satisfazer a memória dos fãs, Metheny construiu uma trajectória coerente através da própria discografia.

‘Song for Bilbao’ encerrou a noite com um último impulso colectivo e uma despedida sem grandiloquência. Ao longo do concerto, o repertório atravessara cerca de cinco décadas, mas a distância entre ‘Bright Size Life’ e ‘Side-Eye III’ nunca se fez sentir propriamente como um ruptura. Os temas antigos não foram tratados como peças de museu e os mais recentes não precisaram de negar o passado para encontrar lugar.

No derradeiro concerto de uma digressão europeia com quase um mês, Pat Metheny não nos apresentou uma retrospectiva. Mostrou, antes, como uma obra pode permanecer aberta, mudar de formação, timbre e escala sem perder a assinatura de quem a criou. A promessa de que Lisboa seria a melhor audiência da digressão ficou do lado do músico; a vontade de o receber de volta, depois de uma década de tentativas, ficou claramente do lado da sala.