Eclipse Cross EV: conduzimos o SUV da Mitsubishi que esconde um Renault, mas brilha no preço, nos consumos e no design

Este Mitsubishi consegue equilibrar uma identidade própria da marca japonesa com uma base técnica sólida e com provas dadas da Renault.

©MotorMais | Mitsubishi Eclipse Cross EV
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Não é só a Nissan que pede emprestada a plataforma à Renault: a Mitsubishi também, mas aqui a história é diferente. No papel, o aluno supera o mestre.

No último mês, tivemos a oportunidade de conduzir dois modelos bastante distintos que têm uma coisa em comum: a Renault. No caso do Nissan Micra, foi usada a plataforma do 5 E-Tech e, no do Mitsubishi Eclipse Cross EV, do Scénic E-Tech. Contudo, os resultados são bem diferentes.

Entre o Micra e o R5, as diferenças de preço são mínimas, cerca de mil euros. Ou seja, não é pelo preço que vamos optar entre um e outro, pelo que a escolha ficará reduzida ao design — e, aqui, não há nada no Nissan que bata o modelo da Renault. Já entre o Eclipse e o Scénic, isto não acontece.

A Mitsubishi conseguiu, acima de tudo, ter um posicionamento muito competitivo: por 43 500 euros, temos um SUV eléctrico totalmente equipado, quando o equivalente francês começa nos 46 840 euros e nem sequer inclui elementos como bancos e volante aquecidos. Por menos três mil euros, a escolha parece quase óbvia, até porque a bateria de ambos é de 87 kWh.

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Depois, a lógica de simplificação de compra é levada ao extremo: o Eclipse Cross apenas tem um nível de equipamento, o Intense, e praticamente tudo vem de série. A única decisão real passa pela cor — e aqui há um detalhe curioso: todas custam 850 euros e as versões bi-tom, como o Volcanic Grey com tejadilho preto, sobem para 1350 euros. É, sem dúvida, dos automóveis mais simples de configurar que já conduzimos.

Por fora, o Eclipse Cross consegue afastar-se visualmente do modelo da Renault mais do que os seus “irmãos” de plataforma; o Colt parece-se muito com o Clio e o ASX, com o Captur. Neste SUV que testámos, as diferenças são mais marcantes, tanto que gostamos mais desta estética que da do Scénic. Aliás, o aspecto é tão diferenciador que notámos vários pescoços a virar à nossa passagem e algumas perguntas sobre que automóvel estávamos a conduzir.

A frente apresenta uma grelha distinta e um desenho mais ousado que o do Scénic, que, decididamente, não passa despercebido. Atrás, as diferenças também existem, mas são menos marcadas; no final de contas, notámos um trabalho de personalização bem conseguido pela marca japonesa.

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No interior, a ligação à Renault torna-se por demais evidente. O desenho do tablier, o ecrã vertical de 12 polegadas, a disposição dos comandos e até as manetes no volante denunciam claramente a origem francesa deste modelo — é caso para dizer que, neste caso, a Mitsubishi não conseguiu fazer um ‘eclipse’ ao estilo da casa gaulesa, nem, provavelmente, era esse o objectivo.

Ainda assim, há apontamentos próprios, como os estofos em tecido e pele sintética, com aplicações tipo alcantara nas portas, embora alguns cromados pareçam dispensáveis. Ao contrário de alguns testes que lemos sobre este modelo, o interior não nos parece “barato”; mesmo com a falta de um tejadilho panorâmico (o forro é em tecido), o ambiente geral é agradável e transmite classe.

O painel de instrumentos digital de 12,3 polegadas destaca-se pelo formato (que preferimos aos horizontais), pela clareza com que mostra a informação e pelas opções de personalização — este é, aliás, um destaque que sempre fizemos quando testámos um Renault.

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A servir de base ao sistema multimédia temos a já nossa bem conhecida plataforma da Google, rápida e intuitiva, com mapas integrados que permitem calcular autonomia à chegada e planear rotas com base em postos de carregamento. Ainda assim, a integração com Apple CarPlay e Android Auto continua a ser a forma mais prática de manter a interface habitual do smartphone.

Muito bom é, igualmente, o painel de instrumentos: pode mostrar desde uma vista completa com Google Maps até um modo mais minimalista com velocímetro e indicador de fluxo de energia. Neste último, há um gráfico particularmente útil que indica autonomia actual, mínima e máxima em tempo real, dando uma noção muito concreta do que podemos esperar da bateria.

Além da plataforma digital, o Eclipse Cross EV também tem boas ideias na organização do espaço. A consola central é aberta e oferece compartimentos generosos, embora algo expostos a olhares vindos de fora; melhor é recorrer ao espaço fundo e prático que temos sob o apoio de braço.

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Há ainda duas zonas dedicadas ao smartphone: uma menos óbvia, na ponta do apoio de braço (onde também estão duas portas USB-C), que nos permite ver cerca de dois terços do ecrã; e outra, mais dedicada e óbvia, por baixo do ecrã, onde temos carregamento por indução, embora aqui fique mais escondido.

A habitabilidade é um dos pontos fortes deste SUV da Mitsubishi. Atrás, há muito espaço, um piso plano e um nível de conforto elevado, onde é possível ir de pernas esticadas. Mas a bagageira não sofre com isto: tem 545 litros, o que, combinado com os 4,48 metros de comprimento, confirma o posicionamento mais familiar do modelo. À frente, os bancos são confortáveis q.b., embora pudessem oferecer mais apoio lateral.

O Eclipse Cross EV recorre a um motor de 162 kW (220 cv), com tracção traseira, e atinge uma velocidade máxima de 170 km/h. A condução é suave e previsível, muito bem complementada com o sistema de patilhas no volante, que permite controlar a regeneração e a condução One Pedal.

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A isto juntam-se a escolha entre os modos ‘Eco’, ‘Sport’, ‘Conforto’ e ‘Personalizado’, sendo que, neste último, é possível ajustar esforço da direcção, resposta dinâmica, iluminação ambiente e até a climatização. De resto, todos os modos podem ser personalizados, algo que esvazia parcialmente este conceito.

Já os sistemas ADAS surpreendem pela positiva: não são intrusivos nem irritantes e a maior prova disso é que nunca sentimos necessidade de os desligar. Ainda assim, o menu ‘My Safety Perso’ permite ajustar tudo ao detalhe, desde o aviso sonoro de excesso de velocidade até à assistência de manutenção na via, antecipação de saída de faixa ou alerta de atenção do condutor.

A bateria de 87 kWh permite, segundo a marca, uma autonomia combinada de 625 km e até 819 km em cidade. Nos nossos registos, com cerca de 90% da condução em modo Eco, obtivemos um consumo médio de 13,7 kWh/100 km, com duas grandes viagens por auto-estrada até Azeitão (para estar na apresentação da nova carta do Wine Corner, o restaurante da José Maria da Fonseca) e Setúbal.

Após 262 km percorridos, terminámos o teste com 52% de bateria, o que confirma a eficiência sólida deste Mitsubishi. Refira-se que os valores oficiais da marca apontam para 16,8 kWh/100 km em ciclo combinado e 12,8 kWh/100 km em urbano.

A ideia que fica do Eclipse Cross EV é a de um SUV que se posiciona como uma proposta racional (não tínhamos dúvidas entre este SUV e o Scénic) e bem equipada, com uma forte base tecnológica e uma boa autonomia. Este Mitsubishi consegue equilibrar uma identidade própria da marca japonesa com uma base técnica sólida e com provas dadas da Renault.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].