Em 2026, o MOTELX chega às vinte edições e, «excepcionalmente», prolonga-se durante onze dias. João Monteiro recorda o passado, analisa o terror português e revela-nos o seu maior medo.
O MOTELX arranca já esta Quinta-Feira, 3 de Setembro, com a exibição de ‘Drag’, uma comédia mórbida de Raviv Ullman e Greg Yagolnitzer protagonizada por Lizzy Caplan e Lucy DeVito. A sessão de abertura está marcada para às 20:30, no cinema São Jorge, e inaugura a maior edição da história do festival: mais de 170 filmes de 40 países, distribuídos por 145 sessões, até 13 de Setembro.
Vinte anos depois de um grupo de amigos ter começado a ver filmes de terror num sótão, João Monteiro define a equipa como um conjunto de «amadores profissionais». Nesta entrevista, um dos directores do MOTELX (o outro é Pedro Souto) explica por que razão Portugal ainda não tem uma indústria de cinema de terror, recorda o impacto de convidados como Zé do Caixão e Alejandro Jodorowsky e admite que o maior pesadelo do festival não seria o público deixar de ter medo, mas, sim, ficar sem apoios.
Quando começaram, em 2007, imaginavam que o MOTELX chegaria às vinte edições ou o plano era simplesmente sobreviver ao primeiro festival?
Nem uma nem outra, acho que fizemos a primeira edição do festival com uma ideia de continuidade. Obviamente que, quando não se tem praticamente apoios, é mais difícil imaginar isso. Agora, nunca pensei que chegaríamos às vinte edições desta maneira. Ou seja, com este sucesso, com esta regularidade de público e, principalmente, no São Jorge, tendo em conta que o sector cultural quase não existe em Portugal.

O MOTELX nasceu de um grupo de amigos que via filmes de terror num sótão. Ao fim de vinte edições, ainda há alguma coisa desse espírito amador ou o festival já se tornou demasiado institucional?
Acho que ficar demasiado institucional é absolutamente impossível, porque as pessoas que trabalham nele não têm nada de institucional. Eu acho que somos amadores profissionais e, neste momento, ao fim de vinte anos, mantemos o ‘amador’ no sentido em que fazemos a coisa por amor, não propriamente por carolice, que é um termo de que eu não gosto.
Não é uma opção nossa fazê-lo mais institucional, porque gostamos e acreditamos no que estamos a fazer. Portanto, esse espírito vai manter-se sempre, dure o festival trinta ou quarenta anos, a não ser que mude de organização.
Durante estes vinte anos, o MOTELX ajudou realmente a criar cinema de terror português ou ainda estamos a falar de casos isolados e de uma indústria que continua sem coragem para investir no género?
Bom… não existe propriamente cinema de terror português, nem uma indústria de cinema em Portugal. Sim, estamos a falar de casos isolados; vão aparecendo, mas são cada vez mais. A indústria não existe, porque os filmes são produzidos através de concursos e apoios estatais, que geralmente não contemplam cinema de género. Isto é uma tradição que já vem do pós-25 de Abril.
O MOTELX não consegue, obviamente, inventar uma indústria nem uma produção sustentada deste tipo de filmes, mas, através das curtas-metragens, temos vindo a revelar alguns autores que se estão a lançar nas longas; portanto, há uma continuidade.

Lembras-te de alguns nomes que se tenham destacado?
Lembro-me do caso do Fernando Alle, do ‘Mutant Blast’, que está agora a fazer um slasher; o Gonçalo Almeida, que já fez uma longa, ganhou o ‘Prémio Curtas’ e depois realizou o ‘Faz-me Companhia’, que estreámos no MOTELX; o Guilherme Daniel, que já ganhou duas vezes o ‘Prémio Curtas’, está também a fazer uma longa; o Francisco Lacerda, o “rei” do ‘Azores Exploitation’, também está a fazer um filme, mas na Finlândia.
Portanto, acho que vai mudar o panorama no futuro, daqui a uns anos… já começo a sentir que há realizadores. Por exemplo, este ano, o Carlos Conceição, com o ‘Bodyhackers’, já representa algo mais próximo de um autor ou de alguém que se esteja a especializar no género de terror dentro do cinema português.
O terror passou das margens para as plataformas de streaming, para as grandes salas e até para os Óscares. Esta popularidade facilitou o trabalho do MOTELX ou tornou mais difícil surpreender um público que já viu quase tudo?
Acho que é um bocado difícil partir para um festival de terror na perspectiva de que vamos surpreender o público. O público de terror não quer ser surpreendido, ou seja, procura as referências e, não digo os clichés, mas aqueles filmes que tenham, de facto, marcas e características que remetam imediatamente para uma ideia de terror.
Portanto, o que o streaming fez foi tornar isto mais difícil, porque os filmes vão imediatamente para estes serviços e não passam nos festivais, o que, obviamente, limita. Muitos dos autores interessantes estão a passar para o streaming, que é onde está, obviamente, o dinheiro para a produção.
Mas até mesmo o sucesso de filmes de terror no cinema não é algo que ajude o MOTELX, porque, de repente, as distribuidoras vão apostando em qualquer filme de terror à espera que se repita o ‘Backrooms’ e o ‘Obsession’. Dentro de um género mais ou menos independente, mais mainstream, torna-se difícil para o MOTELX conseguir exibir certo tipo de filmes, sim.

George A. Romero, Dario Argento, Tobe Hooper, Roger Corman e Ari Aster são apenas alguns dos nomes que passaram pelo festival. Qual foi o convidado que mais vos surpreendeu, pela positiva ou pela negativa?
Pela negativa, não acho que alguém me tenha surpreendido: todos foram convidados fascinantes, temos boas memórias deles todos. Mas o convidado mais importante do MOTELX terá sido o Zé do Caixão, José Mojica Marins, logo no segundo ano, porque, de repente, pôs o festival no mapa.
Era uma coisa que nós não estávamos propriamente à espera: ter um aumento significativo de público. Foi tudo muito à conta deste ícone do cinema de terror brasileiro; a popularidade dele junto da comunidade brasileira surpreendeu-me um bocado, porque não estava à espera que fosse uma coisa tão grande.Depois, lembro-me de que o Stuart Gordon me parecia ser um tipo sério, carrancudo e era exactamente o oposto; o George Romero não precisava daqueles óculos icónicos, porque via bem, mas usava-os para as entrevistas. Então, o que temos são pequenas anedotas que ficam.
O Alejandro Jodorowsky talvez tenha sido aquele que mais mexeu connosco, porque foi tipo um «tornado» que atravessou o São Jorge. É toda uma experiência que vem atrás e que, geralmente, abana as «fundações» de onde quer que ele passe. Mas, pela negativa, ninguém me surpreendeu, confesso. Felizmente, acho que foram todas experiências óptimas, tanto com os veteranos como com os mais novos.

Pela primeira vez, o MOTELX terá onze dias. Isto é uma celebração excepcional dos vinte anos ou uma experiência para perceber até onde conseguem esticar o festival sem matar o público de exaustão?
A resposta é ‘uma celebração excepcional dos vinte anos’, para marcar esta data. Sabemos que, às vezes o público tem um bocadinho de dificuldade em escolher entre os filmes e, ao termos onze dias, há mais possibilidades de ver o máximo possível.
Durante a pandemia, também aumentámos um dia, uma Segunda-Feira, para fazer repetições; acabou por ficar, porque achámos incrível que, depois de o festival acabar, continuava a aparecer público para todas as sessões e algumas até esgotavam.
Portanto, há um lado, obviamente, de experiência, porque nunca fizemos isto… vamos ver como correm os onze dias, que é o tempo normal de um festival. Mas, à partida, será uma coisa excepcional, porque nós gostamos, ou seja, eu, pelo menos, sempre gostei muito desta ideia da experiência intensa e rápida, em que tudo se concentra em sete dias. Acho que tem mais piada fugir um bocado das regras de existência de um festival. E, já que o MOTELX vai ser sempre considerado um festival de nicho, nós, ao menos, queremos ser o melhor festival de nicho.
Depois de vinte edições, qual seria hoje o verdadeiro filme de terror para a organização do MOTELX: perder o Cinema São Jorge, ficar sem apoios ou perceber que o público deixou de ter medo?
O público nunca vai deixar de ter medo. Eu acho que o MOTELX já não trabalha sequer para o medo: basicamente, exibimos os filmes e as pessoas vêm ver. Os meios de comunicação e as redes sociais, quer dizer, é que fazem esse trabalho de deixar a população num pânico constante. Não me parece que as pessoas alguma vez vão deixar de ter medo.
Já ficar sem apoios fará com que o festival acabe de forma abrupta, mas, obviamente, um dia isso terá de acontecer, não é? Este ano vamos meditar um bocado sobre a morte, com a ajuda do Goethe-Institut, mas sabemos que o MOTELX não vai ser eterno. E, obviamente, muito do seu sucesso advém do facto de o São Jorge ter sido comprado pela Câmara Municipal de Lisboa há muitos anos e de servir agora de lar a todos os festivais de cinema.

Sem o São Jorge, o MOTELX não teria a expressão que tem hoje. De qualquer maneira, continua a haver outros espaços; o São Jorge não é o único. Agora, ficar sem dinheiro, sem apoios, significa a morte do festival, claramente. É muito difícil fazer um festival sem apoios, porque os preços e os custos de produção vão aumentando de ano para ano, como é óbvio, enquanto existirem crises económicas e este mundo capitalista em que vivemos.
















