O restaurante de Verão do Páteo Alfacinha serve uma especialidade que é um daqueles pratos que, só por si, nos fazem voltar… mas está tudo no segredo dos deuses.
Não há outra forma de começar a falar do Horta que não seja a sua privilegiada vista sobre o vale de Alcântara. Ao longe, a Ponte 25 de Abril sobressai no horizonte e, pelo meio, Lisboa desce até ao Tejo, com telhados, ruas e árvores a preencherem a paisagem. A vista já impressiona durante o dia, mas ganha outra dimensão depois de anoitecer, quando a ponte se ilumina e transforma um jantar numa experiência que extravasa o que nos chega à mesa.
O restaurante faz parte do Páteo Alfacinha, um espaço fundado em 1981 por Vítor Seijo, junto ao Palácio Nacional da Ajuda. A concessão pertence à Casa do Marquês, que também gere espaços como a Estufa Fria, a Casa do Lago, o Casino Estoril, o Arriba Guincho, o Palácio Conde d’Óbidos e o Marina Lounge Cascais, além do restaurante Epur, no Chiado, distinguido com uma Estrela Michelin.
Aberto sazonalmente, de Maio a Outubro, o Horta concentra a carta na cozinha portuguesa, nos produtos da época e na grelha a carvão. O menu tem assinatura de Humberto Santos, chef executivo da Casa do Marquês, com Carlos Vieira à frente da equipa residente. Peixe fresco, marisco (apresentados à mesa), carnes e petiscos clássicos dividem espaço com alguns pratos menos previsíveis.

O couvert abriu o jantar com Salada de Polvo, Presunto de Porco Preto de Bolota, Azeitonas Marinadas e uma selecção de pães (tudo no ponto certo), a que se seguiram os Peixinhos da Horta, apresentados como a «coqueluche da casa» por António Tavares, gestor do espaço. São pequenos, crocantes e cobertos por um polme consistente, com sabor intenso e espessura suficiente para não desaparecer perante o feijão-verde. Estamos acostumados a vê-los maiores, com uma tempura mais clara, mas a verdade é que a abordagem do Horta os torna mais “snackáveis”, talvez até a pedir uma ronda de cervejas ao fim da tarde.
Como pratos principais, a nossa escolha de peixe foi para o Arroz Negro de Lula e Camarão, que confirmou a leve inclinação da carta para combinações mais alternativas. O arroz chega com uma intensidade evidente a marisco, algo amargo devido à tinta de choco, mas com boa concentração e uma textura capaz de aguentar o peso do prato. Já a Maionese de Alho e Lima deveria criar mais contraste e frescura, mas tem apenas pequenas nozes enclausuradas em rodelas de lula e malagueta. Esta pequena quantidade não cria o efeito de frescura que esperávamos, nem consegue cortar a densidade do arroz.
Com o peixe arrumado, António Tavares desfez a dúvida na carne: tínhamos de experimentar a Tanga de Porco Preto, com a promessa de que seria «a melhor» deste tipo que alguma vez tínhamos experimentado. Conhecemos abanicos, lagartos, secretos, mas… tanga? Esta peça ganhou notoriedade no restaurante Puro Azeite, na aldeia de Abela, em Santiago do Cacém (também há no Adro, em Pias), com uma aura de mistério à volta.

O fornecedor não revela o corte usado e, apesar de o chef saber de onde vem, não partilha o segredo. Sabemos, contudo, que tem origem numa zona do porco com bastante gordura e que apresenta uma carne clara. Na grelha, «grande parte dessa gordura derrete e deixa uma peça muito tenra, suculenta e carregada de sabor», explica António Tavares.
Embora o corte se mantenha em segredo, a quantidade de gordura branca, a forma da peça e a textura depois de grelhada apontam para uma zona próxima da papada, eventualmente um secreto de papada, um dos cortes mais gordos e untuosos do porco preto. A verdade é que, pelo nome, este será o prato que mais despertará curiosidade antes de chegar à mesa e, consequentemente, um dos que mais nos convencerá a voltar.
Esta carne tenra e saborosa, servida num prato de barro com uma dose generosa (cinco boas fatias), foi acompanhada pelas Batatas da Horta, assadas em metades e servidas com azeite quente, orégãos e pedra de sal; tinham um interior macio, uma superfície marcada e um tempero que respeitou a intensidade do porco. Para beber, a Sangria de Frutos Vermelhos, fresca e preparada com espumante, cumpriu a função de aliviar um conjunto dominado pelo carvão, pela gordura e pelos sabores concentrados.

Para terminar, as sobremesas são finalizadas e apresentadas à mesa, um gesto que dá dramatismo ao fecho da refeição; por exemplo, no caso do Leite-Creme (de laranja), o açúcar mascavado é acrescentado à nossa frente, queimado de seguida com um maçarico. Experimentámos ainda a Mousse de Chocolate 70% com Molho de Baunilha de Madagáscar, que se revelou muito densa, quase com a consistência de um gelado; e o Pudim Abade de Priscos, com uma doçura intensa própria da receita, mas acompanhado por abacaxi com raspas de lima, cuja acidez trouxe a frescura necessária e evitou que se tornasse excessivo.
É impossível fugir do facto de muito do sucesso do Horta estar na vista e é difícil imaginar duas ou três outras esplanadas de restaurante em Lisboa capazes de competir com este cenário; para isso, talvez tenhamos de entrar nos rooftops, que já são outro campeonato. Esta varanda sobre Alcântara merece uma visita, sobretudo ao jantar, quando as luzes da Ponte 25 de Abril se acendem ao fundo e elevam o espectáculo visual a outro nível.
No que diz respeito à comida, que, no final de contas, acaba por ser o que nos faz ou não regressar, vimos uma carta com uma verdadeira identidade portuguesa, que trata bem a grelha e encontra nos Peixinhos da Horta, na Tanga de Porco Preto e nas Batatas da Horta os argumentos mais sólidos. O Arroz Negro precisa, talvez, de uma presença mais decidida da maionese de lima, mas não comprometeu a experiência.

O Horta fica no Páteo Alfacinha, com entrada pelo portão situado mais abaixo, na Rua do Guarda-Jóias; o estacionamento pode ser complicado, por isso o melhor é deixar logo o carro cá em cima, na zona do Largo da Ajuda. O horário é das 12:30 às 15 e das 19:30 à meia-noite. As reservas podem ser feitas pelo 213 642 171 ou através site do espaço.
















