O Miss Jappa nasceu em 2016 com a ambição de olhar para o Japão, não como um exercício de exotismo ou tradição imaculada, mas como um território urbano, em mutação.
Sempre que ouvimos falar do Miss Jappa, regressamos mentalmente a 2016, ao almoço neste, então, recém-inaugurado restaurante japonês que prometia ser fora da caixa em Lisboa. As memórias são de um desfile exemplar de pratos, muito marcado pela novidade que este conceito criado pelos fundadores do Go Natural trazia ao Príncipe Real.
O ponto de partida foi cinematográfico. ‘Lost in Translation‘, de Sofia Coppola, serviu de referência conceptual para um restaurante que queria captar um Japão cosmopolita, contemporâneo e emocional: mais urbano, mais Tóquio, menos postal ilustrado da tradição da cozinha japonesa. O Soi fez o mesmo com a cozinha asiática, no geral, e o resultado está à vista: ambos continuam vivos numa Lisboa hoje hipersaturada de conceitos que prometem trazer sempre algo de novo para a mesa.

Quando regressámos ao Miss Jappa para o almoço dos dez anos, encontrámos uma sala familiar. À esquerda, as prateleiras de mercearia continuam dominadas por garrafas de bebidas alcoólicas de todas as cores e feitios. Ao fundo, mantém-se a peça mais icónica do espaço: sobre uma mesa, baloiça a boneca japonesa vinda de Tóquio, integrada numa instalação do artista plástico Filipe Pinto Soares e vestida por Graça Martins, da Bainha de Copas.
Joana e Diogo Martorell quiseram desde o início trazer para Portugal aquilo que descrevem como o retrato de um Japão em movimento, cosmopolita e urbano. O Miss Jappa afirmou-se, assim, como um espaço de cruzamento entre tradição, junk food e propostas fora da caixa, com pratos marcantes como a Roleta Russa, com uma malagueta escondida, ou o Okonomiyaki, com lascas de atum seco que “dançavam” no prato.
À frente da cozinha esteve desde o início Anna Lins, a primeira mulher portuguesa certificada pela All Japan Sushi Association, figura central na «construção da identidade do restaurante», como sublinhou Diogo Martorell durante este almoço de aniversário com vários jornalistas.

Dez anos depois, é precisamente esse legado que serve de ponto de partida para a celebração da década, assinalada com uma nova carta e um ciclo de pop-ups exclusivos assinados por um trio de chefs: a própria Anna Lins, Nuno Gonçalves, do Ramen Supper Club, e Natalie Castro, ex-Isco.
Provámos quase todos pratos que resultam deste exercício colectivo e o balanço é, como seria de esperar num trabalho a seis mãos, feito de altos e baixos. O lado mais lúdico da carta surge com o The Bomb, de Anna Lins, herdeiro directo da Roleta Russa: um conjunto de sushi bites de atum, salmão e camarão que assenta numa lógica de jogo da sorte: lançamos um dado para saber quem tem direito a uma surpresa gastronómica. A ideia funciona mais pelo conceito, mas encaixa no espírito irreverente do Miss Jappa.
Ainda da chef, mas já no território do sushi bar, o Crudo de Atum Braseado revela maior equilíbrio, combinando abacaxi picado, fios crocantes de beterraba, cebolinho, chilli lime e molho de soja fumado. Na vertente mais junk food, o Onigiri Grelhado reinventa o clássico “pastel” de arroz com carne picada de vaca temperada, envolta em alga nori e finalizada com uma crosta de mozzarella e parmesão: directo, consistente e saboroso.

Nuno Gonçalves entra no Miss Jappa com a “bagagem” do ramen e da street food, muito influenciada pelas suas viagens a Tóquio. Serviu um Zaru Udon frio, com massa bem conseguida e molho de amendoim no ponto; e dois ramens — Kinoko Miso e Tokyo Shoyu — que cumprem com noodles saborosos e caldo rico de conforto.
Mas o que nos encheu o olho (ou, melhor, o palato) foi outro prato: Nagoya Tebasaki, umas generosas asas de frango fritas, com mirin, gengibre e molho de soja com as lascas de atum seco que nos fizeram viajar às Okonomiyaki de 2016. Neste prato, que o chef deu ordem para comer com as mãos, ninguém se envergonhou de lamber os dedos.
A fechar o trio, Natalie Castro propõe uma leitura declaradamente luso-japonesa, com pontes entre ingredientes portugueses e técnicas nipónicas. O Congee (inspirado na canja de amêijoas algarvia) com Amêijoas e Coentros é um dos pratos mais identitários desta fusão, mas lutámos com o arroz algo doce e com as amêijoas dominadas pelo molho de limão e o óleo picante.

Os Roru Kyabetsu, rolinhos de couve-lombarda recheados com carne picada, inspirados nas nossas salsichas enroladas em couve, sofrem um pouco com a textura esponjosa da carne, mas o perfil aromático — gengibre, sake, mirin e soja — foi um dos mais interessantes da tarde.
Dizem que ‘o melhor fica para o fim’ e, neste caso, não o conseguimos contrariar. O estômago-extra, sempre reservado para as sobremesas, aplaudiu a Tarte de Yuzu Merengada, com um creme cítrico preciso; e fez “bis” com o Chocolate Branco, Lemongrass, Pêra e Granita de Shisô, onde a fruta embebida em sake, fria e suculenta, equilibra bem a doçura geral.
Em dia de aniversário, era impossível todas as propostas terem o mesmo impacto — não é que isso seja impossível de acontecer, como vimos aqui, em 2025 — até porque cada chef tem o seu toque e seria injusto falar em homogeneidade. A verdade é que o Miss Jappa continua a ser uma mistura de influências, sabores e técnicas, mesmo que a carta (extensa) sofra com isso.

Não há dúvida de que continuamos a estar sentados à mesa de um restaurante resiliente que prefere arriscar a repetir fórmulas seguras. Dez anos depois, o Miss Jappa insiste (e bem) a ter na reinvenção uma parte essencial do seu caminho gastronómico em Lisboa.


















