A José Maria da Fonseca recuperou uma tradição com mais de um século e voltou a colocar barricas de Moscatel de Setúbal a bordo do Navio-Escola Sagres.
Todos sabemos que o mais natural é que os vinhos envelheçam durante décadas em caves, em condições cuidadosamente controladas; também há os que vão ao fundo do mar (como em Sines), mas estes moscatéis de Setúbal andaram ao sabor das ondas.
Os Torna Viagem, da José Maria da Fonseca, embarcaram numa aventura que recupera uma antiga tradição portuguesa e que, em 2026, teve mais um capítulo. Desta vez, foram 825 litros da colheita de 2023 que embarcaram no Navio-Escola Sagres, para uma viagem de quase quatro meses pelo Atlântico.
A história do Torna Viagem remonta ao «século XIX», quando os navios comerciais «transportavam barricas de Moscatel de Setúbal para destinos como o Brasil, África ou Índia», lembra a produtora. «Como nem todo o vinho era vendido, alguns cascos regressavam a Portugal depois de meses no mar, muitas vezes após terem atravessado a linha do Equador. Quando eram abertos, descobria-se que o vinho tinha adquirido características diferentes, com maior complexidade aromática», conta a José Maria da Fonseca.

Em 2000, a José Maria da Fonseca decidiu recuperar esta tradição, em parceria com a Marinha Portuguesa, numa primeira viagem que coincidiu com os 500 anos da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Desde então, a produtora de Azeitão tem repetido a experiência, com diferentes colheitas e itinerários, sempre com a «curiosidade de perceber o impacto do oceano no envelhecimento do Moscatel».
Na apresentação do mais recente lote transportado a bordo do Navio-Escola Sagres, Domingos Soares Franco, enólogo da José Maria da Fonseca (na foto em baixo, à direita), recordou que já foram feitas «mais de dez experiências» deste género e que a empresa tem, actualmente, «cerca de vinte mil litros» de Torna Viagem – uma parte continua a «envelhecer em cascos», à espera do momento certo para ser aberta.
A mais recente viagem começou a 30 de Abril e terminou a 22 de Agosto, depois de o Sagres ter percorrido «cerca de 10 870 milhas náuticas», o equivalente a «mais de vinte mil quilómetros», sublinha José Eduardo de Sousa Luís, comandante (na foto em baixo, à esquerda). O navio passou pelos Estados Unidos, Bermudas e Açores; no porão, levou uma barrica de 600 litros e outra de 225.

Durante o percurso, o vinho esteve «sujeito a condições impossíveis de reproduzir exactamente numa cave tradicional». O objectivo foi, mais uma vez, perceber até que ponto estas diferenças se «reflectem na cor, nos aromas e na evolução do Moscatel», explica Domingos Soares Franco.
Uma das particularidades desta experiência está na própria origem dos vinhos. Domingos Soares Franco disse que, em 2023, decidiu criar um «Moscatel especial para celebrar os duzentos anos da José Maria da Fonseca», que serão celebrados em 2034. Para isso, trabalhou com Paulo Hortas (na altura, o seu «braço direito na enologia»), numa experiência que respeitou as regras da denominação Moscatel de Setúbal, mas introduziu alterações no processo de produção: por exemplo, com a «adição de aguardente em diferentes momentos e uma fermentação a cinco graus».
Os dois acabaram por produzir vinhos distintos. Paulo Hortas optou por um contacto «muito reduzido com as películas das uvas», o que deu origem a um Moscatel de «cor mais clara». Foi precisamente este que seguiu viagem a bordo do Sagres, enquanto o outro ficou em terra, em Azeitão. Domingos Soares Franco destacou ainda que uma das alterações mais evidentes nos vinhos que viajam é o «escurecimento da cor».

Mas o enólogo tem uma ambição que ainda não conseguiu concretizar: enviar um dos seus moscatéis numa «segunda volta ao mundo». A ideia surgiu depois de perceber que uma rota com passagem pelo Equador pode dar ao vinho características que «equivalem a cerca de quinze anos de envelhecimento», enquanto uma volta ao mundo representa «quase trinta». A pandemia de COVID-19 acabou por impedir essa experiência e deixou o Sagres a meio da viagem.
Apesar da raridade destes vinhos e do interesse que despertam entre coleccionadores, a vertente comercial não é a principal motivação do projecto. Sofia Soares Franco garantiu que o Torna Viagem tem, acima de tudo, um «objectivo científico», o que explica também a impossibilidade de o provar nas visitas habituais à loja da José Maria da Fonseca.
A viagem de 2026 teve também um significado especial por estar ligada às comemorações dos 200 anos da produtora. Parte do Moscatel que regressou a Portugal deverá integrar uma edição comemorativa limitada, prevista para 2034; até lá, continuará o seu envelhecimento. Para Domingos Soares Franco, há ainda outra incógnita: o destino dos vinhos que permanecem nas caves. «Não sei o que é que a nova geração da nossa família quer fazer. Ela é que vai decidir se quer vender ou passar para a próxima», concluiu o enólogo.


















