‘Imitação dos Pássaros’: três gerações sobem ao palco do Variedades entre a violência de um pai, o sonho de um filho e o abraço de uma avó

O teatro é, para Filipe, uma maneira de imaginar outra vida. A sua ligação a Nina, de ‘A Gaivota’, nasce desse desejo de representar contra a vontade do pai, que quer o filho à frente da empresa da família.

©TRENDY Report | Imitação dos Pássaros
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Lídia Franco, Baltasar Marçal e Tiago Fernandes são os protagonistas de uma peça que vai, de forma muito rápida, do amor e da incompreensão ao remorso e ao arrependimento.

Filipe tirou Engenharia Civil porque era o curso que o pai queria. Cumpriu essa parte do “plano”, mas não é feliz: quer fazer teatro, identifica-se com uma personagem feminina de Tchekhov e não corresponde à ideia de ‘homem’ que lhe exigem. O pai (Tiago Fernandes) chama-lhe inútil, bate-lhe e põe-no fora de casa. Numa das falas mais violentas de ‘Imitação dos Pássaros’, há uma ameaça que dispensa interpretações: «Se for gay, mato-o com as minhas mãos, não quero uma aberração em casa».

É difícil ouvir estas palavras e pensar que estamos apenas a observar uma família que não sabe conversar. Há silêncios, há afectos por dizer, mas há também medo e uma autoridade que castiga quem se desvia da norma. A mãe, ausente do elenco de três personagens, existe no que se conta dela: cala-se, tem «medo de levar uma estalada», conta Filipe à avó.

A peça de Tiago Torres da Silva, que estreia a 30 de Setembro no Teatro Variedades, em Lisboa, arranca na casa da avó. É para lá que Filipe vai quando precisa de colo, de conversar e de alguém que não transforme cada desejo seu num problema. Baltasar Marçal, que interpreta o jovem, resume a relação com uma frase que também descreve a distribuição dos afectos em palco: «O meu amor vai para a avó».

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Lídia Franco dá corpo a esta avó que escuta o que o filho não consegue ouvir. «É uma salvadora», diz a actriz, numa conversa com TRENDY Report. «Ela vive mais para os outros que propriamente para si» – mas seria redutor vê-la apenas como o refúgio compreensivo do neto. Também tem contas a ajustar consigo: admite que quis «compensar», na relação com Filipe, o «carinho que faltou dar ao filho». O colo que oferece ao neto também transporta uma tentativa de reparação – uma das muitas camadas de ‘Imitação dos Pássaros’.

E é aqui que a peça ganha uma dimensão mais incómoda. A avó, capaz de acolher o neto, é também a mãe de quem o rejeita; o afecto não passa intacto de geração em geração, nem a proximidade de agora apaga automaticamente as faltas de antes. Quando Filipe lhe fala de um curso de teatro, a avó confessa: «Gostava tanto de ter feito teatro», o que abre outra possibilidade: naquele sonho, a avó reconhece qualquer coisa que também foi sua.

O teatro é, para Filipe, uma maneira de imaginar outra vida. A sua ligação a Nina, de ‘A Gaivota’, nasce desse desejo de representar contra a vontade do pai, que quer o filho à frente da empresa da família. Na peça de Tchekhov, Nina sonha com um palco enquanto, à sua volta, dizem que esse caminho não serve. No texto de Tiago Torres da Silva, há, inclusive, uma referência à recente passagem de ‘A Gaivota’ pelo Teatro da Trindade, que Filipe diz ter visto.

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O encenador mete, porém, um limite à influência: «A sombra da ‘Gaivota’ do Tchekhov paira pelo espectáculo, mas não o domina», dado que o interesse está, sobretudo, na imagem de alguém à beira de uma queda: «Tenho três personagens que estão à beira de abismos e as três precisam de aprender a voar».

Alberto, o pai, interpretado por Tiago Fernandes, é duro: Tiago Torres da Silva deixa no ar que houve um acontecimento traumático que o levou a «fechar-se numa armadura». É possível que, com o avançar da história, possamos ter de rever o nosso juízo inicial sobre esta personagem. Mas uma pergunta é certa: quanto pode a dor de um pai explicar o sofrimento que impõe ao filho?

A peça, contudo, levanta reservas a uma resposta demasiado simples. Um acontecimento vivido pela família teve consequências diferentes na avó e no pai: a ela, trouxe-lhe liberdade; a ele, aprisionou-o. Tiago Torres da Silva sublinha esta diferença: «Não são só os acontecimentos, é a reacção que nós temos aos acontecimentos». Conhecer a origem da brutalidade ajuda a compreender Alberto, mas não torna menos brutal aquilo que faz.

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Assim, será que esta família tem salvação? «Claro que sim. O amor salva sempre», acredita o encenador. O que vimos no ensaio de imprensa deixa-nos, contudo, mais perto da ideia do remorso avassalador: do amor que só se reconhece quando já houve perda, das decisões dos filhos que se aceitam tarde, da vontade de reparar o que deixou de estar inteiramente nas nossas mãos.

Há também humor, muito dele trazido pela irreverência da avó. A personagem de Lídia Franco não está em palco apenas para amparar o sofrimento dos outros: tem desejos, vontade própria e uma disponibilidade para a vida que contraria a rigidez do filho.

Em ‘Imitação dos Pássaros’ vemos formas diferentes de sofrimento na mesma família que destroem pontes e aumentam a distância entre mãe e filho, filho e pai. No fundo, uma distância que se mede naquilo que cada um ainda consegue dizer, antes de ser tarde.

Esta peça (com oitenta minutos) estreia amanhã, 30 de Setembro e fica em cena até 25 de Outubro. Há sessões Quarta-Feira a Sábado, às 21 horas; e aos Domingos, às 16 horas. Os bilhetes têm preços a partir dos doze euros.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].