Uma sala quase cheia, telemóveis fechados em bolsas e pouco mais de uma hora de pequenas irritações transformadas em comédia. Só escapou o elefante na sala.
Actuar em Lisboa não costuma ser o sonho de um comediante. «Las Vegas, Los Angeles, Paris», mas nunca a capital portuguesa. Jerry Seinfeld começou por brincar com o destino que o trouxe ao Pavilhão Atlântico nesta estreia em Portugal e teve uma resposta imediata: gargalhadas de uma plateia que praticamente enchia a sala e que o recebeu com entusiasmo.
Seinfeld assumiu que não sabia muito sobre Lisboa nem exactamente no que se metera ao aceitar vir, mas disse que confiava na recepção do público. Em Setembro, vários artistas tinham abandonado o cartaz, num movimento associado às posições públicas de apoio a Israel do humorista. Inês Aires Pereira, que retirou ‘Namastê’, escreveu que não se podia «relativizar ou normalizar um genocídio».
Os Cebola Mol também anunciaram a saída, com uma mensagem sobre justiça e liberdade e uma imagem de uma melancia, símbolo de solidariedade com a Palestina. Outros nomes desapareceram da programação, embora nem todos tenham explicado publicamente os motivos. A organização manteve Seinfeld como cabeça de cartaz e, na verdade, era mesmo o único espectáculo que interessava ver.
A primeira parte coube a Ryan Hamilton (que já tinha actuado a solo, no Sábado, no Capitólio – foto em baixo), com cerca de meia hora de humor auto-depreciativo sobre a vida amorosa e a sua condição de solteiro. Presença habitual nas aberturas dos espectáculos de Seinfeld, evidenciou também uma semelhança física que o próprio cabeça de cartaz acabaria por assinalar.

Depois de um início com cerca de trinta minutos de atraso em relação às 21:30 anunciadas, a passagem entre os dois fez-se sem intervalo: Hamilton saiu e Seinfeld entrou. Antes disso, já o público tivera de cumprir uma regra pouco habitual: guardar os equipamentos electrónicos nas bolsas Yondr, fechadas durante o espectáculo.
Seinfeld, claro, aproveitou o assunto. A vantagem, disse, era poder viver o que acontecia ali, em vez de ficar absorvido pelo telefone. Uma sala sem ecrãs levantados era, assim, um dos protagonistas da noite. Com os smartphones fora da acção, o comediante tinha a total atenção do público.
O casamento foi um dos temas dominantes do espectáculo. Quando falou nos anos de vida conjugal e recebeu aplausos, Seinfeld encontrou uma comparação pouco romântica: «É igual a quando se aplaude um atleta que sai lesionado. Não sabemos exactamente onde dói, nem quanto, mas percebemos que há sofrimento suficiente». Esta referência já tinha feito parte de uma participação no ‘The Tonight Show’, em Novembro de 2024, tal como a sua especialização em ‘wifeology’, o «estudo das expressões faciais da mulher». Em Lisboa, esta ciência doméstica voltou a ser posta ao lume: depois de 26 anos de casamento, a cara de Jessica Seinfeld já não tem segredos.
O marido prudente, que Seinfeld garante ser, na lógica destas piadas, aprende, sobretudo, a «não fazer perguntas». Um móvel muda de sítio? Mudou. Uma jarra ou um bibelô reaparece noutro ponto da casa? «Há que aceitar a nova geografia». Para saber o que acontece em casa, basta ouvir as conversas da mulher, ao telefone, com outras pessoas: «Ela conta-lhes tudo. Se estou noutra sala, faço como um veado a beber água quando ouve um ramo partir. Levanto a cabeça e tomo atenção». Os maridos também acabaram por ser comparados a golfinhos: «Fazem habilidades para impressionar e a mulher só diz: ‘Para que raio foi isso?’».

Uma das paixões de Seinfeld é o café (a sua sitcom passava muito por um diner e foi o autor de ‘Comedians in Cars Getting Coffee’), pelo que já se sabia que iria ter direito a um bloco extenso e a um elogio local: Seinfeld gostou do que bebeu em Lisboa – «É intenso e meloso». No Pavilhão Atlântico, o café serviu para explicar a passagem entre o sono e a existência: «É o portal entre a cama e a vida».
O papel do café é simples: «A vida mói-nos e nós moemos o café»; e, até às portas da morte, Seinfeld ia continuar a ser fiel ao “ouro líquido”: «As minhas últimas palavras seriam para pedir um café e, se a cafeína me impedisse de dormir, não ia ser um grande problema…». Já a água mereceu menos carinho. A obsessão com a hidratação parece ter acabado com uma necessidade elementar: «Já ninguém tem tempo de sentir sede, estamos sempre a beber». Também as conversas sociais passaram pelo exame de Seinfeld: «Quem nunca esteve num grupo, ouviu alguém falar e percebeu que, a certa altura, já não queria saber do resto?».
O embalo da morte, no contexto do café, levou à morada final: «Construímos prédios, estádios, pontes e estradas cada vez maiores, mas os cemitérios estão sempre iguais? Nunca há obras de ampliação». Assim, a única explicação seria um jogo: «Debaixo da terra, os caixões estão arrumados como peças de Tetris?» Ainda na mesma linha, o Titanic apareceu a propósito da tragédia do submersível Titan: «Mais de um século depois do naufrágio, continua a matar pessoas».
Já perto dos noventa minutos em palco, Seinfeld despediu-se, encaminhou-se para a saída, mas voltou atrás, já quando algumas pessoas abandonavam o Pavilhão Atlântico. Ao microfone, lançou um desafio: «Afinal ainda tenho mais alguns minutos. Querem perguntar-me alguma coisa?»
Esta seria a oportunidade para confrontar o comediante com a polémica da desistência de alguns nomes do cartaz do Commedia à la Carte Fest, ou, no limite, com as suas posições sobre o conflito entre Israel e a Palestina, mas o público foi “fofinho” – as perguntas foram apenas sobre a televisão e a vida familiar. Depois de uma noite em que nos contou as vantagens conjugais de evitar perguntas, esta foi uma coincidência em jeito de última piada.


















