Aqui, a filosofia passa por imprimir o menu todos os dias e cozinhar apenas o que o mercado oferece de melhor. Na verdade, o que é simples esconde uma enorme sofisticação.
Há restaurantes onde se vai para experimentar um prato específico. No Fismuler, acontece precisamente o contrário: vai-se para descobrir o que a cozinha decidiu fazer naquele dia, embora haja um que se mantém firme na carta – mas já lá vamos.
E este é mesmo um dos traços mais distintivos do restaurante criado por Nino Redruello, que abriu em Madrid em 2016 e chegou a Lisboa há um ano, integrado no piso térreo do ME Lisbon, hotel onde também temos o Attiko. A carta é «impressa diariamente» e muda ao ritmo do que há no mercado, das estações e da inspiração da equipa liderada por Nuno Dinis. Existem alguns clássicos intocáveis, mas há sempre novidades que justificam (re)descobrir o Fismuler.
A ideia nasceu em Madrid, ganhou uma segunda morada em Barcelona e, depois de Lisboa, chegou também a Andorra; em breve, estreia-se em «Sevilha e Valência». A unidade lisboeta foi, ainda, a primeira da marca instalada num hotel e acaba por partilhar o piso térreo com o Elia Bar, uma «homenagem de Nino Redruello à avó».

Apesar da forte identidade espanhola, o “dedinho” português foi-se metendo ao longo deste primeiro ano. Os pratos que viajaram de Madrid continuam presentes, mas vivem de «cada vez mais ingredientes nacionais»; a isto, junta-se a influência da cozinha nórdica (que esteve na base da criação do Fismuler original), numa combinação que resulta surpreendentemente bem, até nos nomes.
Em vez de explicações com clichés como ‘em cama de’ ou ‘na sua espuma’, seguem uma regra simples: três ou quatro ingredientes, sem adjectivos ou descrições elaboradas. A carta limita-se a indicar-nos o essencial e deixa que seja o chef a completar a história quando os pratos chegam à mesa. Foi esta simplicidade (sofisticada) que pautou o almoço de aniversário do Fismuler em Lisboa, em que estivemos presentes.
O couvert deu logo o mote: o Paté Caseiro de Porco e Frango, servido com molho teriyaki, pepino pickle e pão de massa-mãe, revelou uma profundidade de sabor muito acima do habitual, muito guloso. Nas entradas, a Bocata de Borrego destacou-se pela focaccia extremamente crocante, mas capaz de suportar uma carne muito tenra e bem temperada.

A Vieira do Pacífico, Emulsão de Piparras foi um excelente exercício de equilíbrio entre notas doces, salgadas e frescura. Depois, dois crudos: a Dourada Semi-curada, Amêndoa, Uva Tinta, que nos conquistou pela delicadeza, leveza e perfil aromático; já o Crudo de Atum, Beterraba, Crème Fraîche teve como base uma preparação irrepreensível, sem artifícios, na mesma linha da Dourada (foto em cima).
Uma das novidades da carta era a Burrata, Cecina Ibérica, Pêssego Grelhado (foto em baixo), provavelmente o prato que melhor resume a filosofia do Fismuler. A intensidade da cecina nunca abafou a cremosidade da burrata, enquanto o pêssego grelhado nos deu uma doçura subtil – sem dúvida, um daqueles pratos que justificam, só por si, a visita ao Fismuler.
Nos pratos principais, a Corvina Grelhada, Couve, Kimchi Caseiro foi outro prato para apontar: impecavelmente confeccionada, húmida e delicada, acompanhada por uma couve extremamente crocante e um molho kimchi cheio de carácter, picante na medida certa e suficientemente complexo para dar personalidade ao prato sem esconder o sabor do peixe.

Para terminar os pratos principais, um dos grandes clássicos da casa – este sim, intocável e firme na carta do Fismuler: o Escalope San Román, Ovo, Trufa (foto de destaque). Este enorme panado de porco continua a impressionar pela dimensão, mas é o ritual final que o torna especial. Finalizado à mesa, é usado um ovo BT misturado com a trufa e o cebolinho, o que cria um molho rico que envolve a carne. Contudo, seria bom juntar um pouco de sumo de limão e flor de sal para o elevar a um patamar ainda mais elevado.
Para sobremesa, houve menos consensualidade à mesa: a Tarte de Queijo, com queijo azul e de cabra, demasiado intensa, não será para todos os palatos e vai defraudar quem for à procura de uma tradicional tarte de queijo do País Basco. Em sentido contrário, o Pudim Fumado com Abacaxi Fumado (foto em baixo) revelou-se muito mais delicado do que o nome faz prever, cremoso e subtil, assim como o Arroz Doce Fumado, transformado quase numa espuma de merengue, ligeiramente braseada para criar uma fina camada caramelizada, leve como uma nuvem.

A grande sensação que tivemos durante o almoço foi a de que o Fismuler consegue reunir técnica, simplicidade e ingredientes premium sem nunca parecer pretensioso. A cozinha aberta, a decoração industrial, com madeira reaproveitada, tampos de mármore, bancadas de aço e iluminação suave, ajudam a criar um ambiente descontraído e muito intimista, onde a cozinha de Nuno Dinis faz a diferença.
Ao fim de um ano em Lisboa, o Fismuler não nos parece querer reinventar a gastronomia, nem surpreender com combinações extravagantes. Prefere deixar que os ingredientes, a técnica e o equilíbrio de sabores falem mais alto – por isto, torna-se um dos mais fortes candidatos ao título de ‘Melhor Restaurante da TRENDY Report 2026′.


















