Almoçámos no novo Café São Bento e só nos lembramos de pedir pão para não deixar uma gota de molho

Se em Roma temos de ser romanos, no Café de São Bento há que pedir o emblemático Bife à Café de São Bento.

©TRENDY Report | Café de São Bento
©TRENDY Report

O Café de São Bento chega à Baixa com um restaurante onde os clássicos são “titulares”. Quisemos experimentar a carta e estivemos… quatro horas à mesa.

Há muito que o Café de São Bento deixou de ser um exclusivo da rua homónima onde fica a casa de Amália Rodrigues e a Assembleia da República: há «filiais» no Mercado da Ribeira e em Cascais, mas Lisboa continuava a precisar de ter mais bifes com molho.

Desde 2022, sob a liderança de Miguel Garcia, estes restaurantes passaram a fazer parte de um grupo e, hoje, têm como «irmãos» o Bougain, o Corleone e o histórico Snob, reaberto no final de 2024. Dois anos depois, foi a vez de o Café de São Bento ter novidades, com a abertura na Rua do Jardim do Regedor, no mesmo edifício do igualmente novo 1904 Benfica Hotel.

O ADN desta zona é conhecido e não tem segredos: muito do movimento é pautado pelo ritmo dos espectáculos do Coliseu de Lisboa, do D. Maria II (que reabre este ano) e do Politeama. Mesmo ao lado, estão ainda espaços igualmente históricos da capital, como o Gambrinus, o Bonjardim, a Casa do Alentejo e a Ginjinha Sem Rival. História cultural e gastronómica não falta, portanto.

©TRENDY Report | Café de São Bento
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A chegada a uma nova “casa” não fez Miguel Garcia alterar o essencial: o restaurante continua fiel a uma «cozinha clássica portuguesa», assente em receitas dos «restaurantes mais típicos de Lisboa», como os Filetes de Peixe-Galo, que o chef João Santos insiste (e bem) em manter o «mais simples possível» — este é o segredo para que, em cada garfada, se possa sentir o sabor a casa.

A nova sala, com cerca de setenta lugares, é mais ampla do que a da Rua de São Bento (tem meia centena) e assume uma estética que «dialoga» com a história do edifício. Há um tecto espelhado, sofás de veludo vermelho, cadeirões em pele e mesas de madeira «iguais» às do restaurante original, sublinha Miguel Garcia, que recebeu a reportagem do TRENDY Report para um almoço que demorou quatro horas.

O ambiente é confortável, distinto e com uma classe que remete para o antigo clube de cavalheiros que abriu neste mesmo espaço em 1918, o Bristol. Apesar de a sala ter sido renovada para estar em linha com o design do Café de São Bento, há duas marcas do passado que dão ao restaurante uma carga histórica impossível de ignorar: os dois baixos-relevos femininos ao fundo da sala, da autoria de Leopoldo de Almeida.

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À mesa, a viagem pela carta do «novo» Café de São Bento começou com um quarteto de entradas, onde estavam três opções exclusivas deste restaurante: Croquetes de Novilho, Peixinhos da Horta (estaladiços, com um polme leve e uniforme, acompanhados por uma maionese de citrinos fresca) e Ameijoas à Bulhão Pato.

Esta última foi a primeira que nos obrigou a pedir um cesto suplementar de pão: sem recurso ao limão (o chef justifica que, em casa, não o ensinaram a fazer assim), o molho de vinho branco, alho e coentros revelou-se profundo e equilibrado, daqueles para ensopar até que um pedaço de pão deixe de colar o fundo do tachinho.

Finalmente, o Bife Tártaro, um clássico do restaurante, partilhado entre São Bento e Rossio, que segue a cartilha clássica: lombo de novilho picado e temperado com precisão, servido com tostas e um nível de picante bem calibrado, que respeita o sabor da carne e a sua textura.

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Nos pratos principais, a escolha teve de ser óbvia: se em Roma temos de ser romanos, no Café de São Bento há que pedir o emblemático Bife à Café de São Bento, com a mesma receita do «histórico bife à Marrare, criada no século XVIII», lembra Miguel Macedo.

Servido com batatas fritas aos palitos e um molho denso e envolvente, que continua a ser, sem surpresas, uma das imagens de marca da casa. O medalhão de novilho chegou suculento e consistente (pedimos médio-mal passado), fiel ao perfil que criou a reputação do restaurante.

João Santos não nos deixou sair, ainda, sem provar os Filetes de Peixe-Galo — «se gostaram dos Peixinhos, têm de os provar». A insistência do chef tinha razão de ser: mais uma vez, um polme bem aderente, leve e crocante, acompanhado por um arroz de tomate à antiga, equilibrado entre doçura e acidez, uma evocação de uma cozinha da avó, sem fazer concessões à modernidade: «Se é simples e funciona, para quê inventar?», perguntou o chef.

©TRENDY Report | Café de São Bento
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Nas sobremesas, a sugestão foi para o Soufflé de Avelã (feito na hora), outro exclusivo deste Café de São Bento, servido com gelado de baunilha e um interior cremoso, bem recheado de molho quente. Juntámos ainda a Tarte de Lima para fazer um equilíbrio de frescura e leveza, embora a base de bolacha com manteiga tenha revelado uma doçura mais marcada do que o desejável.

A acompanhar, os vinhos da casa, produzidos pela Quinta do Côto, cumprem o seu papel, mas com uma ressalva: o branco, floral e equilibrado, acompanhou bem as entradas e os Filetes. Já o tinto, do Douro, é menos encorpado do que seria ideal para acompanhar o Bife.

Com esta nova abertura, o Café de São Bento reforçou a sua presença na cidade, sem abdicar da identidade que o tornou um clássico; ou seja, sem cair no erro de inventar pratos para turista ver. A mudança para a Baixa não é uma reinvenção, mas sim uma abertura cuidada e lógica de um restaurante que continua a apostar na tradição, na consistência e numa cozinha que dá prioridade ao conforto e à memória.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].