Há poucos anos, termos como GLP-1 ou semaglutido eram conversa de consultório de endocrinologia. Hoje aparecem em jantares de família, em vídeos nas redes sociais e em notícias de horário nobre. As chamadas canetas para emagrecer passaram de tratamento discreto para fenómeno público, e com isso chegou também uma boa dose de confusão. Vale a pena separar o que a ciência mostra do que se diz por aí.
O que são, afinal, estas canetas
As canetas para emagrecer são dispositivos de injeção com uma agulha muito fina, usados por baixo da pele, normalmente no abdómen, na coxa ou no braço. O que interessa está lá dentro: medicamentos que imitam hormonas produzidas pelo intestino depois das refeições.
A mais conhecida é o GLP-1, uma hormona que ajuda a regular o açúcar no sangue, atrasa o esvaziamento do estômago e envia ao cérebro sinais de saciedade. Na prática, quem faz o tratamento tende a sentir menos fome e a ficar satisfeito com porções mais pequenas.
Os nomes que mais se ouvem são três. O Ozempic e o Wegovy têm o mesmo princípio ativo, o semaglutido, mas o Ozempic está aprovado para a diabetes tipo 2 e o Wegovy foi desenvolvido especificamente para o controlo do peso, em doses mais altas. O Mounjaro contém tirzepatida, que atua sobre dois recetores ao mesmo tempo, o do GLP-1 e o do GIP, outra hormona intestinal envolvida no metabolismo. Todos são administrados uma vez por semana.
Porque é que toda a gente fala delas
A resposta curta é simples: os resultados são muito superiores aos dos medicamentos para a obesidade que existiam antes.
No ensaio STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, cerca de 1.960 adultos com excesso de peso ou obesidade receberam semaglutido 2,4 mg semanal ou placebo durante 68 semanas, sempre com aconselhamento sobre alimentação e atividade física. O grupo tratado perdeu em média 14,9% do peso corporal, contra 2,4% no grupo placebo.
Pouco depois, o ensaio SURMOUNT 1, publicado na mesma revista em 2022, acompanhou mais de 2.500 adultos com obesidade durante 72 semanas. Com a dose mais alta de tirzepatida, a perda média chegou aos 20,9%, contra 3,1% no placebo. Para uma pessoa com 100 quilos, estamos a falar de perto de 20 quilos a menos.
A estes números juntou-se o efeito das redes sociais, de figuras públicas e do passa-palavra. A procura foi tão grande que o Ozempic chegou a faltar nas farmácias, o que levou as autoridades de saúde, incluindo o Infarmed, a pedir que fosse reservado a quem tem diabetes tipo 2, a indicação para a qual está aprovado.
Não são todas iguais
Apesar de serem frequentemente comparadas, as canetas Wegovy e Mounjaro têm diferenças importantes. O Wegovy contém semaglutida e atua como agonista do recetor GLP-1, enquanto o Mounjaro contém tirzepatida e atua sobre os recetores GLP-1 e GIP. Por isso, também diferem na forma como influenciam o apetite, a saciedade e o controlo da glicemia.
As doses e o esquema de aumento progressivo também são diferentes. Além disso, os medicamentos têm indicações aprovadas distintas e podem provocar efeitos secundários diferentes. No ensaio SURMOUNT-5, publicado em 2025, a tirzepatida levou a uma perda média de peso de 20,2% após 72 semanas, em comparação com 13,7% com a semaglutida.
Estes resultados não significam que um tratamento seja adequado para todas as pessoas. A escolha depende do histórico clínico, de outras condições de saúde, das indicações aprovadas e da forma como cada pessoa tolera o tratamento.
Para quem estão indicadas
Aqui convém ser claro: não se trata de um tratamento estético para perder uns quilos antes do verão. Na União Europeia, os medicamentos aprovados para o controlo do peso destinam-se, em regra, a adultos com índice de massa corporal igual ou superior a 30, ou igual ou superior a 27 quando existe pelo menos um problema de saúde relacionado com o peso, como hipertensão, diabetes tipo 2 ou apneia do sono.
São medicamentos sujeitos a receita médica obrigatória. O médico avalia o historial, os exames e a medicação que a pessoa já toma, e define o esquema de doses. O tratamento começa sempre com uma dose baixa, que vai subindo ao longo de várias semanas para dar tempo ao organismo de se adaptar. Nos ensaios clínicos, estes medicamentos foram sempre usados em conjunto com mudanças na alimentação e na atividade física, e não em substituição delas.
Efeitos secundários: o que é comum e o que exige atenção
Os efeitos mais frequentes são gastrointestinais: náuseas, diarreia, obstipação, vómitos, azia e sensação de enfartamento. Costumam aparecer no início do tratamento ou quando a dose aumenta e tendem a diminuir com o tempo.
Há também efeitos raros mas mais sérios, como pancreatite e problemas na vesícula biliar. Dor abdominal forte e persistente é motivo para procurar ajuda médica de imediato. Estes medicamentos não devem ser usados por pessoas com antecedentes pessoais ou familiares de carcinoma medular da tiroide ou de síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, nem durante a gravidez. Quem está a tentar engravidar deve falar com o médico antes de começar.
Outro ponto que merece atenção é a massa muscular. Qualquer perda de peso rápida leva também a alguma perda de massa magra, por isso os especialistas recomendam uma ingestão adequada de proteína e treino de força durante o tratamento.
O que acontece quando se para
Esta é talvez a parte menos falada. A obesidade é hoje encarada como uma doença crónica e estes medicamentos atuam enquanto estão a ser tomados. Quando o tratamento é interrompido, o apetite tende a voltar.
Na extensão do ensaio STEP 1, os participantes que deixaram o semaglutido recuperaram cerca de dois terços do peso perdido no ano seguinte. Por isso, a decisão de começar deve incluir desde logo uma conversa sobre a duração do tratamento e sobre como manter os resultados, com mudanças de hábitos que se aguentem a longo prazo.
Cuidado com canetas de origem duvidosa
A enorme procura abriu espaço a um mercado paralelo. A Agência Europeia de Medicamentos e a Organização Mundial da Saúde já emitiram alertas sobre canetas falsificadas de semaglutido, algumas com substâncias diferentes das indicadas ou sem qualquer princípio ativo. Comprar através de redes sociais, anúncios ou vendedores sem receita é um risco real para a saúde. O caminho seguro passa sempre por uma prescrição médica e por farmácias autorizadas.
Em resumo
As canetas para emagrecer representam um avanço genuíno no tratamento da obesidade, e os números dos ensaios clínicos explicam o entusiasmo. Mas não são uma solução mágica nem um atalho sem custos. Têm indicações precisas, efeitos secundários a vigiar e resultados que dependem de continuidade. Antes de avançar, a conversa certa é com um médico, que pode avaliar se o tratamento faz sentido e qual a opção mais adequada para cada caso.











