Um “diário de bordo” à mesa: o Saldanha Mar prova que, para comer um bom peixe não é preciso ter uma vista para o mar

Neste restaurante, a carta assume o estilo de um «diário de bordo feito de sabores, onde cada receita tem alma e cada ingrediente carrega uma história», explica o chef.

©TRENDY Report | Saldanha Mar
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Quem disse que os bons restaurantes de peixe e marisco só ficam perto do mar? Provavelmente ninguém, mas é sempre uma boa oportunidade para dar como exemplo espaços como o Saldanha Mar.

Há restaurantes de hotel que vivem da conveniência: estão logo ali para os hóspedes, embora escondidos de quem vem de fora; e depois há os que fogem a esse rótulo, com a porta aberta para a rua e esplanada, uma espécie de convite implícito para quem vem de fora.

É aqui que fica o Saldanha Mar (DoubleTree by Hilton Lisbon – Fontana Park), com uma sala que até foge ao clássico, com um ambiente geral que se aproxima mais de uma marisqueira contemporânea que de um restaurante de hotel tradicional. Contudo, não temos aquários com lagostas ou vitrinas exuberantes de peixe.

Em vez disso, domina uma estética… depurada: muito branco, linhas rectas, um longo balcão que acompanha a sala e que acaba por ser uma janela para a zona de grelha. Numa das pontas, espreita um discreto mostruário de peixe que quase passa despercebido — um detalhe coerente com o tom mais sóbrio da sala.

©TRENDY Report | Saldanha Mar
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O Saldanha Mar também vive dos pormenores. A loiça azul contrasta com o branco dominante, numa evocação do imaginário costeiro, sem cair em clichés. Sobre as mesas, há sardinhas Bordallo Pinheiro e até a manteiga dos Açores chega à mesa moldada em forma de peixe. Temos classe, mas com descontração.

Na cozinha, o chef Fábio Leonardo (esteve no Crowne Plaza Caparica Lisbon desde a abertura até 2024, quando saiu para este novo desafio) aplica uma abordagem que se reflecte numa carta assumidamente pessoal. «É uma carta em estilo de diário de bordo feito de sabores, onde cada receita tem alma e cada ingrediente carrega uma história», explica.

A base é uma «paixão pela cozinha mediterrânica e portuguesa», com «forte ligação ao produto local», até porque «muitos dos ingredientes chegam directamente do Mercado 31 de Janeiro, mesmo em frente ao Saldanha Mar». À mesa, essa filosofia traduz-se em pratos com uma evidente frescura.

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No almoço que serviu de avanço para o novo menu de Primavera (com estreia marcada para Abril), foi a Salada de Bacalhau do Avô João que teve honras de abertura, um prato com um registo emocional. Inspirada numa «memória de infância» do chef, chegou à nossa mesa com um tom leve, com uma acidez cítrica bem medida e um vinagrete afinado. Os pimentos acrescentam textura e aproximam o prato do sabor clássico de uma salada de polvo.

Seguiu-se o Lingueirão na Brasa, servido ao natural. Aqui, não há invenções: limão, calor e frescura, exactamente como este bivalve pede para ser tratado. A fechar as entradas, houve um Camarão Pil-Pil, para fazer subir a intensidade: o equilíbrio entre o picante e a doçura do camarão está bem conseguido, com um molho onde a erva-príncipe e o gengibre pedem pão torrado em sucessivos mergulhos.

Este trio de entradas encontrou uma boa companhia no vinho verde da casa, Só Vinha: leve, fresco, com uma ligeira sensação de frisante que casou bem com marisco e peixe.

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No prato principal, a cozinha de Fábio Leonardo mantém-se fiel à simplicidade. O peixe do dia — no caso, um Robalo ao Sal — chega acompanhado por feijão verde, cenoura, ovo cozido e grelos salteados. É um prato que respeita o essencial: um sabor limpo e uma execução segura, sem ruído, o maior reflexo de uma cozinha em estado puro.

Ao lado, o Arroz de Limão e Lingueirão surgiu como acompanhamento, mas consideramos que tem dimensão para assumir outro protagonismo. Cremoso, e com o lingueirão no ponto, podia apenas ter um tempero mais afinado, sobretudo no sal; se quiser picante, o melhor é engolir em seco.

O restaurante não tem uma sugestão caseira, como era esperado: a sugestão foi malagueta triturada e um impensável Tabasco, qualquer uma das opções muito aquém de uma marisqueira que se preze. Conseguimos ultrapassar esta falha com vários goles de Megafone, um branco do Algarve, com estrutura suficiente para lidar com a intensidade do arroz e a delicadeza do peixe.

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A finalizar, um detalhe que faz sempre a diferença em restaurantes no centro das cidades: o estacionamento no parque do hotel é gratuito para clientes, mas pede-se que a equipa seja informada, idealmente no momento da reserva, para garantir um lugar. Pode fazer isto pelo 210 410 600.

Começou no jornalismo de tecnologias em 2005 e tem interesse especial por gadgets com ecrã táctil e praias selvagens do Alentejo. É editor do site Trendy e faz regularmente viagens pelo País em busca dos melhores spots para fazer surf. Pode falar com ele pelo e-mail [email protected].