A produtora de Reguengos de Monsaraz apresentou hoje, em Lisboa, duas novas referências que assinalam uma mudança clara no posicionamento da cooperativa alentejana. No final do ano chega o terceiro vinho.
Até agora, a Carmim tinha vários blockbusters, como os Terras d’El Rei, Reguengos ou Monsaraz, mas havia uma lacuna na oferta: um vinho de gama alta que pudesse trazer notoriedade à marca e à região. A partir de agora, esta “missão” passa a ser cumprida pela gama Raízes.
Para já com um Branco e um Rosé, esta gama de «topo» representa um passo deliberado em direcção a segmentos onde a marca, apesar do «reconhecimento consolidado, ainda não tinha presença», lembrou João Caldeira, director da Carmin, durante a apresentação oficial, que aconteceu hoje ao almoço, em Lisboa, no Alma 54 Winebar.
João Caldeira enquadrou o projecto como uma resposta a uma necessidade antiga da cooperativa Carmim: «Temos sido muito capazes de fazer vinhos a grande escala que expressam o potencial de uma região. São vinhos reconhecidos, com valor na grande distribuição, feitos exclusivamente com vinhas de Reguengos», explica.
Contudo, o director admitiu que este modelo, assente em lotes de várias vinhas, nem sempre encontra espaço no universo da restauração de fine dining: «Precisávamos de entrar noutro mercado para potenciar o reconhecimento da marca.» É neste contexto que nascem os Raízes, um projecto iniciado há cerca de dois anos e assente numa ideia simples mas exigente:
A ideia passou por criar vinhos de um «único lugar, com identidade própria e produção limitada». A dupla de Raízes são, assim, vinhos «diferentes, genuíno, apenas de uma vinha», sublinha João Caldeira. Para criar estas referências, a cooperativa desafiou alguns associados a avançarem para uma pequena produção a partir de uma vinha histórica da região, plantada no final da década de 1970, com mistura de castas. «É um vinho com alma de lugar, que nos permite entrar em segmentos de onde estávamos mais afastados.»
O processo não foi, contudo, fácil: o director da Carmim compara o desafio a «uma suite de violoncelo muito precisa, difícil de executar», como que a sublinhar a exigência técnica e conceptual do projecto. Ainda assim, a ideia acabou por receber apoio de todos os sócios da cooperativa: «A conversa aconteceu numa assembleia geral em Janeiro e a reacção positiva foi unânime. Os produtores gostaram da ideia».

Para João Caldeira (na foto, em cima), a solidez da marca Reguengos, avaliada em cerca de seis milhões de euros, foi determinante. «A nossa força dá-nos liberdade para criar e foi isso que pedi aos enólogos Rui Veladas e Tiago Garcia». Os dois responsáveis, que também marcaram presença na apresentação dos Raízes, revelaram que a selecção partiu das vinhas mais velhas, onde a Carmim identificou as que tinham maior potencial.
«Quisemos voltar às castas antigas. O objectivo era procurar frescura e carácter», explicaram os enólogos; acabaram por encontrar estas características numa vinha, plantada em 1979, que acaba por estar na origem dos três vinhos da gama (todos colheitas de 2024), incluindo o tinto que será lançado no final do ano.
O trabalho seguiu uma abordagem assumidamente tradicional, com pisa a pé e intervenção mínima. «Usámos técnicas tradicionais ao máximo. São quase vinhos de autor», resumiram Rui Veladas e Tiago Garcia. O Raízes Rosé (Tinta Caiada) tem 13% de teor alcoólico, produção limitada a 1122 garrafas numeradas e um preço de 32 euros. O grande trunfo está no facto de se afastar do «perfil clássico» dos Rosés marcados por fruta vermelha exuberante.
«Queríamos um Rosé mais sério», explicam os enólogos, que apontaram «notas de pêssego e alperce, estrutura e potencial de guarda». Como sugestões de harmonização, Tiago Garcia sugeriu ao TRENDY Report «mariscos como carabineiro ou robalo ao vapor». No evento de apresentação, que contou com pratos do restaurante japonês Ryōshi, foram servidas ostras com vinagre dashi e ovas para harmonizar com este vinho (imagem em baixo)

Já o Raízes Branco assume um registo mais «contido e complexo». Feito a partir de Roupeiro e Arinto, tem 12% de álcool, uma produção de 1890 garrafas e um preço de 49 euros. A colheita foi diferenciada: o Arinto «entrou cedo para preservar acidez, enquanto o Roupeiro foi vindimado no ponto óptimo de maturação». O resultado é um vinho de «acidez vibrante, já com complexidade, mas sem excessiva exuberância aromática».
A gama Raízes fica completa no final do ano com o lançamento do Raízes Tinto, criado com Carignan e Trincadeira. Até lá, a ideia é que os novos Branco e Rosé comecem a aparecer em cartas de restaurantes como o «Rocco ou o JNcQUOI», confidenciou João Caldeira.
Este é um sinal de que a Carmim quer ocupar um espaço diferente no discurso do vinho português, mas sem abdicar da sua identidade cooperativa. Para provar ambos, esqueça os super e hipermercados: os Raízes apenas podem ser encontrados à venda na loja da Carmim, garrafeiras e, claro, em «restaurantes de topo».


















