João Canijo: cinco filmes obrigatórios do realizador que mostrou um Portugal cru, sem pedir licença

João Canijo nunca procurou consensos: preferiu sempre o desconforto, a fricção e a verdade emocional.

©Elena Ternovaja / Wikipedia | Joao Canijo
©Elena Ternovaja / Wikipedia

Ao longo de mais de três décadas, João Canijo criou uma obra marcada por personagens intensas, conflitos familiares à flor da pele e um olhar cru sobre as dinâmicas de poder, classe e afecto.

João Canijo nunca procurou consensos: preferiu sempre o desconforto, a fricção e a verdade emocional. A sua filmografia é incontornável e define um território muito próprio no cinema nacional, com histórias que regressam obsessivamente à família como espaço de tensão.

Também nos seus filmes há relações de dependência emocional, violência e mulheres fortes presas em contextos opressivos. João Canijo aproximou-nos das personagens de forma quase claustrofóbica, com diálogos directos e uma direcção de actores profundamente trabalhada, herdeira de processos próximos do teatro.

O contributo de João Canijo para o cinema português passou por ter assumido o melodrama como ferramenta política e social, rompendo com um naturalismo confortável e introduzindo um cinema de confronto emocional. Estes são o cinco filmes a que não podemos fugir e que reflectem de forma mais fiel e crua a sua filmografia.

Sangue do Meu Sangue (2011)

Um dos filmes mais marcantes de João Canijo é centrado numa família da periferia de Lisboa onde o amor, a culpa e o sacrifício se confundem. O realizador também escreveu o argumento: um melodrama intenso e sufocante, com interpretações notáveis de Rita Blanco, Anabela Moreira e Cleia Almeida que expõe as tensões sociais e emocionais de um núcleo familiar em permanente estado de colisão.
Onde ver: HBO Max, Filmin, Apple TV+


Ganhar a Vida (2001)

Centrado numa comunidade portuguesa emigrada em França, é um retrato duro do luto e do desenraizamento. A história acompanha Cidália (Rita Blanco) que tenta reconstruir a vida após a morte do marido. É um filme que observa com rigor a solidão, a perda e a violência emocional associadas à experiência migratória.
Onde ver: Mubi


Noite Escura (2004)

Livremente inspirado no mito de Édipo, ‘Noite Escura’ mergulha no submundo da prostituição e da criminalidade. É um dos filmes mais frontais do realizador, onde se cruzam abuso, dependência e relações de poder, num retrato sem concessões da violência masculina e dos destinos fechados. Fernando Luís, Rita Blanco e Beatriz Batarda são os protagonistas.
Onde ver: Mubi


Mal Viver (2023)

Premiado no Festival de Berlim, vencedor de vários Sophia e a escolha da Academia Portuguesa de Cinema para os Óscares 2024, faz parte de um díptico onde também está ‘Viver Mal’. A acção decorre num hotel decadente onde uma família de mulheres vive presa a uma herança emocional marcada por ressentimento e frustração.
Onde ver: RTP Play, Filmin


Viver Mal (2023)

Pensado como contraponto de ‘Mal Viver’, mostra os mesmos acontecimentos a partir do ponto de vista dos hóspedes do hotel (‘Viver Mal’ é a perpectiva da família). O resultado é um exercício narrativo ambicioso sobre egoísmo, fragilidade emocional e incapacidade de comunicação, reforçando a coerência temática do universo de Canijo. Os dois fimes foram transformados numa minissérie para a RTP que mistura as duas visões: ‘Hotel do Rio’.
Onde ver: Filmin

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