O novo luxo em Portugal? Experiências que parecem feitas só para nós

Há alguns anos, uma viagem especial tinha ingredientes relativamente previsíveis. Um bom hotel, uma mesa num restaurante difícil de reservar, talvez um carro à espera no aeroporto. Hoje, continuamos a gostar de tudo isso, mas há qualquer coisa a mudar.

Cada vez mais, aquilo que torna uma experiência memorável não é necessariamente o que custa mais. É aquilo que parece ter sido pensado para nós.

Pode ser um restaurante em Lisboa que nunca encontraríamos sozinhos. Uma pequena adega recomendada por alguém que conhece bem a região. Um passeio que acaba num lugar que não estava no programa. Ou simplesmente uma noite numa cidade desconhecida na companhia certa.

No fundo, procuramos menos a experiência que toda a gente conhece e mais aquela que sentimos que foi nossa.

Já não queremos todos fazer a mesma viagem

Durante muito tempo, viajar implicava aceitar um certo guião. Em Lisboa visitava-se Belém, subia-se ao Castelo, passava-se pela Baixa e acabava-se provavelmente num restaurante de fado. No Porto havia a Ribeira, as caves e uma fotografia junto ao Douro.

Nada disso perdeu o encanto. O que mudou foi a vontade de descobrir o que existe à volta.

Basta passar uma tarde em Lisboa para perceber isso. Há visitantes que já não querem apenas saber onde fica o melhor restaurante. Querem saber onde alguém que vive na cidade iria jantar numa terça-feira. Não procuram necessariamente o bar mais famoso, mas aquele onde vale a pena ficar até mais tarde. Querem perceber por que razão um bairro muda completamente quando anoitece.

É uma diferença pequena, mas importante.

Informação temos em excesso. Em poucos segundos encontramos cinquenta restaurantes, vinte bares e centenas de avaliações. O que continua a ser difícil encontrar é contexto.

É aí que entra o conhecimento de quem vive num lugar.

O próprio Turismo de Portugal tem apostado numa imagem do país que vai muito além do sol e da praia. Gastronomia, cultura, natureza e experiências locais passaram a ocupar um espaço cada vez maior na forma como Portugal se apresenta ao mundo.

E faz sentido. É difícil criar uma ligação emocional com uma lista de atrações. É muito mais fácil criá-la com uma história, uma pessoa ou um momento inesperado.

O luxo tornou-se mais pessoal

Também a nossa ideia de luxo mudou.

Claro que um quarto extraordinário continua a ser um quarto extraordinário. Um grande restaurante continua a justificar uma viagem. Mas exclusividade já não significa apenas ter acesso ao que é caro.

Às vezes significa ter acesso ao que é difícil de encontrar.

Um concierge que percebe que não queremos o restaurante da moda, mas uma tasca onde ainda se ouve português nas mesas ao lado. Um guia que percebe a meio da manhã que estamos mais interessados em arquitetura do que em monumentos e muda o percurso. Um chef que se senta durante cinco minutos à mesa para explicar de onde veio o peixe.

Nenhuma destas coisas é particularmente extravagante. Ainda assim, são frequentemente as histórias que contamos quando regressamos a casa.

As grandes plataformas de viagens perceberam isso há muito. A Airbnb passou de uma plataforma centrada essencialmente em alojamento para um ecossistema onde experiências e atividades também têm um papel importante.

Hotéis fazem algo semelhante. Restaurantes criam mesas especiais. Agências oferecem viagens desenhadas à medida. Até atividades tradicionalmente coletivas aparecem agora em versões privadas.

O denominador comum é simples: alguém está disposto a pagar mais, ou a procurar durante mais tempo, para sentir que não recebeu exatamente o mesmo produto que toda a gente.

Lisboa é uma cidade onde isso funciona particularmente bem

Lisboa ajuda.

A cidade é suficientemente pequena para atravessarmos vários mundos numa única noite e suficientemente complexa para continuarmos a descobrir coisas novas anos depois.

Podemos começar a tarde no Príncipe Real, descer até São Bento, jantar na Bica e terminar a noite a poucos quilómetros dali com a sensação de termos passado por quatro cidades diferentes.

E Lisboa tem outra característica curiosa. Muitos dos seus melhores momentos não são propriamente atrações.

É a mesa cá fora que ainda apanha os últimos minutos de sol. O miradouro onde chegámos por acaso. O pequeno restaurante que alguém recomendou. A conversa que fez com que ficássemos mais uma hora.

Talvez por isso tenha crescido também a procura por formas mais pessoais de conhecer a cidade.

Nem sempre isso significa contratar um guia. Às vezes significa conhecer alguém.

Quando a companhia faz parte da experiência

Há uma dimensão desta economia das experiências sobre a qual se escreve menos, embora não seja propriamente nova: a companhia privada.

Quem viaja sozinho conhece bem a situação. Podemos estar num excelente hotel, numa das cidades mais interessantes da Europa, com centenas de restaurantes à porta, e ainda assim não ter grande vontade de jantar sozinhos.

Para algumas pessoas, a resposta está nas aplicações de encontros. Para outras, em eventos sociais ou experiências de grupo. E existe também um mercado de companhia privada que se tem tornado mais organizado através de plataformas digitais.

Em Lisboa, a The Girl Next Door é um exemplo desta evolução. A plataforma reúne acompanhantes independentes e apresenta os perfis de uma forma que dá bastante espaço à personalidade, aos interesses e ao tipo de experiência que cada pessoa oferece.

É um mercado adulto, naturalmente, mas reduzi-lo apenas à componente sexual é ignorar parte da razão pela qual este tipo de serviço existe.

Há quem procure companhia para jantar. Quem prefira beber um copo e conversar antes de regressar ao hotel. Quem esteja numa cidade durante dois dias por trabalho e simplesmente queira passar algumas horas com alguém que conhece o lugar.

A chamada Girlfriend Experience tornou-se popular precisamente dentro dessa lógica. A ideia não é reproduzir uma relação, mas tornar o encontro menos mecânico e mais pessoal.

Curiosamente, isso aproxima este setor da mesma transformação que vemos noutras áreas do turismo e do lifestyle. Quanto mais digital se torna a forma de encontrar um serviço, maior parece ser a procura por uma experiência que não pareça digital.

A tecnologia resolve o encontro, não a química

Existe aqui uma contradição interessante.

Temos mais ferramentas do que nunca para encontrar exatamente aquilo que queremos. Podemos escolher um hotel através de centenas de filtros, selecionar um restaurante pela fotografia de um prato e conhecer alguém sem sequer sair do sofá.

Mas quanto maior é a escolha, mais importante se torna a confiança.

Queremos saber se as fotografias correspondem à realidade. Se as avaliações são verdadeiras. Se a pessoa existe. Se o serviço corresponde à descrição.

Por isso, conceitos como perfis verificados, identidade digital e avaliações ganharam importância em setores completamente diferentes. A tecnologia tornou possível encontrar desconhecidos. Agora tenta resolver o problema seguinte: fazer com que confiemos neles.

Ainda assim, há uma parte que nenhum algoritmo consegue organizar.

Uma aplicação pode encontrar alguém com os mesmos interesses. Não consegue garantir que a conversa flua.

Pode indicar o restaurante mais bem avaliado de Lisboa. Não sabe se naquela noite preferíamos uma bifana e uma cerveja.

Pode construir um itinerário perfeito. Não sabe quando nos apetecerá abandoná-lo.

É precisamente nessa margem de imprevisibilidade que muitas vezes aparecem as melhores experiências.

Talvez seja esse o verdadeiro luxo

Portugal recebe milhões de visitantes e, inevitavelmente, muitos acabam por passar pelos mesmos lugares. Comem nos mesmos bairros, fotografam os mesmos miradouros e procuram as mesmas praias.

Não há nada de errado nisso. Alguns lugares são famosos porque realmente merecem ser vistos.

Mas quando pensamos nas viagens de que ainda nos lembramos anos depois, raramente recordamos apenas uma lista de monumentos.

Lembramo-nos de uma conversa. De alguém que nos levou a um lugar onde não teríamos ido. De uma noite que começou sem grandes planos e acabou muito mais tarde do que esperávamos.

Talvez seja por isso que as experiências personalizadas estejam a ganhar tanto espaço.

Num mundo em que quase tudo pode ser reservado em segundos, o que parece verdadeiramente exclusivo é aquilo que não sentimos que poderia ter acontecido exatamente da mesma maneira a qualquer outra pessoa.

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